Da semana que passa ficam sob suspeita o deputado da República que não suporta notícias e os que lidam mal com as acusações de que são alvo por parte do Ministério Público.
Há figuras públicas convictas ou mal aconselhadas, apostadas em pressionar-nos para evitar a mediatização das acusações do Ministério Público nos processos judiciais em que são citadas, sobre os quais já falaram vezes sem conta. Escusam de perder tempo. No DIÁRIO, assuntos de manifesto interesse público serão sempre notícia, estejam ou não sob alçada da Justiça desacreditada pelos que dela se defendem, versem ou não sobre irresponsabilidades financeiras nas autarquias, nas empresas públicas ou na Assembleia Legislativa, sejam ou não prova de fraudes, abuso de poder, de dívida oculta, de facilitismos e até de confissões oficiais como esta, a de que nos concursos há por vezes “violação dos princípios da livre concorrência, da transparência e da igualdade, que se impõem à contratação pública”. Até porque, desde que respeite as leis em vigor, neste jornal a ninguém é negado o direito de resposta, venham ela de onde vier.
Neste contexto, surge Guilherme Silva a considerar que o DIÁRIO faz "um jornalismo rasca". Afinal, o jardinismo não só lê como dá palpites sobre o aqui se escreve. Só pode ser em nome do singular pluralismo à moda do chefe. Ora, Guilherme Silva não é um advogado qualquer. Não é um político sem cadastro. Não é um cidadão sem responsabilidade. É deputado da Nação há vários anos. Tem funções na República. É comentador de televisão. Foi até à proibição ordenada por Jardim colaborador na área de opinião neste jornal, deixando de o ser quando por nós confrontado, pois até então não tomou a iniciativa de assumir que aceitara sem reparo a imposição do seu amado líder.
Guilherme Silva deve ter lido em Abril último que, na Madeira, 85% dos que têm por hábito ler jornais e revistas em papel são leitores do DIÁRIO. Também por isso devia medir melhor as palavras. Afinal, quem é "rasca"? Quem tem papel identitário, faz parte da história individual e colectiva, é o link de pertença à ilha, é a sua voz e resume a mundividência? Quem tem um papel simbólico e é um espaço de independência e isenção, um exemplo, uma referência e uma âncora? Quem tenta ser honesto, admite o erro e procura a verdade? Quem pratica o pluralismo consagrado no estatuto editorial? Quem sabe que a objectividade pode ferir susceptibilidades? Quem em democracia dá expressão da elementar diversidade? Quem dá a cara por aquilo que escreve? Quem faz jornalismo para informar quem lê?
Guilherme Silva fez uma escolha legítima, a condizer com as suas opções e estatuto. Tem todo o direito a entreter-se com as folhas que podem pagar-lhe avenças e dar eco ao disparate. Tem todo o direito a defender causas nobres, algumas das quais perdidas. Mas, com franqueza, quem subverte dados, nega o contraditório e chula o erário é o quê? E já agora, como classifica o jornalismo que só dá voz ao dono e seus cúmplices, se recusa sistematicamente a publicar direitos de resposta e só o faz por deliberação da entidade regulador, nega espaço aos que se preparam para acabar com o jardinismo suicida, não assina os insultos aos seus e produz factos de baixo nível de modo a alimentar caprichos, ódios e amores pessoais?
Guilherme Silva, se não quer aparecer nas fotografias junto às personalidades que o levam aos tribunais, retire-se ou mude de profissão.