Em democracia há uma certeza: cada povo tem o governo e os políticos que merece. Porque os escolhe, não os substitui só porque não quer e, quando não vota, demite-se das suas responsabilidades deentidade máxima no sistema. Quem não vota é irresponsável – disso não abro mão – e a sua opinião não interessa para nada. Só mesmo para ocupar espaço no facebook. Depois deste ponto prévio, uma declaração de interesses que não é politicamente correcta, passamos ao tema do momento: o número de deputados da Assembleia Legislativa da Madeira. À boca cheia, diz-se que deveriam ser 'menos de 20', 'dois ou três', 'nenhum' ou outras asneira,s só possíveis porque quem as debita não dá qualquer valor à democracia, nem respeita um direito que foi conquistado com o sacrifício de muitos. É fácil dizer, na tasca, no café ou nas tertúlias de amigos, onde se faz tudo pro ouvir a própria voz, que não precisamos de partidos, temos deputados a mais, deviam ganhar o ordenado mínimo, etc, etc. Que na ditadura é que era bom, vomitam alguns. Fica bem, dá muitos likes no facebook, mas não passa de conversa fiada, sem fundamento e totalmente desprovida de raciocínio. Uma estupidez, para resumir. Podemos concordar que há deputados e outros políticos que nem merecem as senhas do autocarro, mas esse é outro problema. Da nossa responsabilidade, porque os elegemos e desprezámos outros que seriam mais competentes. Também permitimos, ao legitimar pelo voto, que se criassem financiamentos partidários escandalosos. Mais uma vez, é um 'jackpot' subscrito pelos eleitores. Os mesmos que hoje querem crucificar deputados e outros políticos e há bem pouco tempo gritavam nos comícios/arraiais, ao som do Tony Carreira e do 'Vamos, vamos Alberto João'. Por mais que se inventem teorias fantásticas, não há democracia sem partidos, sem políticos e, muito menos, sem parlamentos com dimensão digna e representatividade garantida. Também não há democracia sem eleitores conscientes e críticos. Não há democracia com abstencionistas e outros baldas do mesmo género. Por tudo isso, querer um parlamento regional reduzido a uma dimensão inferior à de uma assembleia de freguesia é uma tentativa de destruir o pouco de democracia que sobreviveu nesta terra. É querer destruir a diversidade de opiniões que ainda resiste. No fundo, é querer acabar com a liberdade.
Jorge Freitas Sousa