Relicário Cada um celebra o seu 5 de Julho como quer e como pode, sendo a Independência Nacional, data histórica e existencial, de todos e de cada um. No que concerne à causa coletiva - hino, bandeira, ato solene, homenagem e condecoração -, não se deve furtar à solenidade oficial, posto tudo fazer parte da República, conforme vaticínio do poeta Mário Fonseca, em “quando a vida nascer”. Já no que concerne à coisa individual, a História tem o condão de formular para cada um suas estórias, com euforias e desânimos, avanços e recuos, realizações e frustrações, pois nada é linear nesta vida, tal como o mundo, este paradoxo às voltas. Há ali objetividades e subjetividades, como aqui axiomas e incógnitas, porquanto soberania, na cadeia de valores, seja pré-requisito da democracia e esta condição qualificadora do desenvolvimento. Ora pela rama da formalidade patriótica, ora pelo mergulho dos questionamentos e manifestações, canta, irão, que esta é a terra dos nossos avós - sem aspas algumas. No que tudo tem de sagrado e de profano, também vive-se o 5 de Julho (mas o de 1975!) como uma lembrança no relicário. Homem Novo Busco nos versos de Sophia de Mello Breyner Andresen o sentimento que me suscita o 5 de Julho de 1975, porquanto «dia inicial inteiro e limpo». A cada ano, por este dia, evoco sempre Amílcar Cabral, não só pela visão estratégica notável com que conduziu a luta de libertação nacional, mas também pela grandeza humana e cultural que emprestou à gesta da soberania nacional. Hoje, trinta e nove anos passados, e em plena normalidade democrática, este é ainda o legado determinante e, convenhamos, diferenciador. Nestes tempos difíceis e exigentes, em que a gesta é de operacionalizar as “vantagens competitivas” para o desenvolvimento e, sem extravagâncias ideológicas, formatar o “Homem Novo”, impõe-se-nos também recontextualizar e potencializar o Humanismo pelo qual Cabral viveu e morreu, Celina 1. Músicas há que ninguém canta como Celina Pereira. Experimentem ouvi-la a entoar “Ave-Maria no Morro”, de Herivelto Martins. Qual Dalva de Oliveira, Celina introduz também o seu idioleto e o seu toque singular, arrepiando quem ouve (sobretudo, quem assiste ouvindo), a récita desse “Barracão de zinco/Sem telhado, sem pintura/Lá no morro/Barracão é bangalô”... 2. Estórias há que ninguém conta como ela. Assistam-na a falar aos meninos da fantástica lenda “Estória Estória...do tambor a Blimundo”, do boi que se evade do trapiche e assume a liberdade de amar a “vequinha de Praia”. Quem se recusaria ao encanto coral que só ela obriga, porque o encanto tem ali peso e ocupa espaço? E, dir-se-ia um tutti d’orchestra, nós assim: “Tim-tim ne nhê cavequim/Cóp-cóp ne nhê prentém/Tim-tim ne nhê cavequim/Glú-glú ne nhê bli d’ága”... 3. Atitudes há que ninguém assume com esta Diva. Não só pelo ativismo multicultural um pouco por todo o lado (Cabo Verde, Portugal, Itália, Estados Unidos da América, all over...), mas também (diria até, essencialmente) pela promoção da Cultura Cabo-verdiana, não fosse ela a pioneira (diria agora, pioneiríssima) na ideia da candidatura da Morna a Património Imaterial da Humanidade, que, um belo dia, será reconhecida pela UNESCO. Promoção efectiva e afectiva da Coladeira, do Funaná, do Batuque, do Colá Son Jon, da Bandeira, do Rabolo, do Landú, do dizer poesia, do cozer midje in grom, do dançar mazurca, galope e contradança, do rir das piadas de Zé Afonso, do fazer charme, ó saudoso Travadinha, à la “feiticeira de cor morena”, mas de olhos verdes, gente, do vestir bonitas túnicas africanas, sem o modismo barato da “ancoragem”... 4. Cénica, cinemática, plástica, poética, quando há luzes na ribalta. Amiga, autêntica, intensa, ciente de que “um contador de histórias não é só um narrador, tem de ser um ator”, Celina encanta. Celina é um show...tomado de alma. 5. Orlando Pantera, outra brilhante luz, uma espécie de Cometa Haley, que brilhou na música cabo-verdiana, quando as pessoas mereciam abraço e os momentos indiciavam o groove, sussurava: “Mais alma”. Ah, Pantera! * Filósofo e escritor, conselheiro do Primeiro Ministro de Cabo Verde
Filinto Elísio *