
Numa época em que estamos como que ligados à máquina dos mercados e fazemos o escrutínio bi-horário das opções governativas e da gestão pública que continua a servir mesa farta à vida política e à sua rede tentacular que espreme o povo contra os torniquetes do estado social para tapar buracos financeiros e para manter os mesmos vícios de conservação autocrática do poder, é natural que nos debrucemos sobre o pilar que resta da corroída estrutura democrática insular.
Resta-nos enfim, uma última instância correctora da cadeia de comportamentos danosos. Há quem confira em nós uma paciência de santo que se confunde com uma sapiência tardia, daquelas que desperta da lucidez e do choque de um caldo entornado. Mas o exercício da cidadania nas urnas não substitui o exercício da justiça que aguarda pelo seu tempo fechado a sete chaves no Departamento Central de Investigação e Acção Penal e na Procuradoria-Geral da República. No meio das suas permeabilidades e morosidades, o tempo da justiça há-de chegar depois de analisados processos, provas documentais e testemunhais de pinças e luvas e com o telefone a tocar de vinte em vinte minutos.
Aguardamos pela realização da universalidade da lei e que se sentem no banco dos réus não só os carteiristas do pequeno delito mas também os autores morais e materiais do assalto encapuzado à carteira de mais de 265 mil madeirenses. A responsabilidade pela produção de uma dívida oculta que grassa a cada dia que passa não pode ser encarada como uma travessura de arraial. Uma confissão pública não pode ser peta quando é dolosa. A omissão de mil facturas de obras públicas dos organismos fiscalizadores não pode resumir-se a um bitate para Lisboa ou a um inocente revanchismo contra esses colonialistas centralistas que decidiram cortar nas transferências do orçamento de estado. Do mesmo modo, temos de encorajar e proteger as instituições judiciais que não pactuam com o “transvio de grandes somas de dinheiro público” para financiar partidos. Instituições como o Tribunal de Contas. Com base em que fundamento, um deputado na Madeira vale 23 vezes mais do que um semelhante do continente (Assembleia da República) e seis vezes do que um dos Açores? “Por que razão se recusam, com variadas e inconsistentes desculpas, a colaborar com o tribunal?”
A factura contributiva está bem presente na vida dos madeirenses. O desterro financeiro não se esvaiu pela ribeira abaixo nas enxurradas de 20 de Fevereiro, nem os nomes dos levadeiros das contas públicas estão escritos nas 10 mil páginas daquele estudo sobre o encontro de contas entre a Madeira e a República desde a data da colonização portuguesa - um trabalho que tem mais interesse no prisma da história e da antropologia do que da política actual e que custou 300 mil euros em tempos de agruras. O governo de Alberto João Jardim pode exportar bananas, cérebros ou jovens desempregados, mas não pode expulsar a responsabilidade pela falência técnica do projecto da Autonomia ao mesmo tempo que centra em si a vitimização pelo martírio de séculos de exploração.
Aquele estudo do ‘deve e haver das finanças da Madeira’ é uma fuga para o passado. Faz lembrar o filme 'Regresso ao Futuro', interpretado por Michael J. Fox em 1985, mas com os ponteiros do relógio a andarem ao contrário. A poderosa máquina do tempo inventada por um louco cientista do novo milénio não nos leva para a frente. Não põe a Madeira em marcha. É uma comédia de ficção científica à qual lhe assenta que nem uma luva um título que o seu actor principal tanto abomina: "Regresso ao Passado". Mas há que reconhecer mérito e utilidade a esta produção científica. Ao menos dá para imaginarmos o quão grande seria o buraco que o governo jardinista, esse visionário futurista, teria aberto há 600 anos...