Não nasci em nenhuma família de políticos. Nem tão pouco a política era assunto comum nas conversas em família, numa época em que a revolução era verde mas o medo era maduro. A política entrava a preto e branco pelas notícias do telejornal, sem direito a comentário ou a suspiro. Ficava-se pelas palavras másculas do jornalista pivot sem direito a eco na sala de estar.

Outras preocupações assolavam e passámos por algumas dificuldades, hoje comuns mas não exclusivas deste tempo. Salários em atraso e desemprego foram realidades que conheci desde criança e bem de perto. Foi aí que comecei a crescer com consciência de classe, sem saber qual a esquerda e qual a direita. Durante toda a sua vida, o meu pai trabalhou muito por muito pouco. E sempre fiquei irritado com tamanha acomodação e auto-satisfação. Aqui não chegava o sonho americano e por mais que se trabalhasse não se chegava a rico. Mas já na altura pensamentos se levantavam na minha cabeça de que o Estado e os governos não eram árbitros imparciais numa sociedade de interesses que tinham de ser defendidos.

Não chegava o sonho americano, mas chegava o sonho da Autonomia. O único momento de verdadeira discussão do estado da nação acontecia nos serões de sábado, em casa do meu avô, no Caminho do Jamboto, Santo António, já nessa altura com o estigma de Zona Alta.

À volta da mesa e depois da série Espaço 1999 (lembram-se como parecia tão distante?), reuniam-se os filhos, os netos e as noras. O meu pai, uma espécie de moderador de um debate entre gerações e opções políticas, fazia a ponte entre o conservadorismo do meu avô e o progressismo do meu tio Horácio.

Tendo passado pelas dificuldades de duas guerras mundiais e mais as agruras de muitos anos de ditadura e de desprezo do Estado Português por estas ilhas outrora adjacentes, o meu avô era um crente “jardinista”. Como que imbuído de uma nova fé sempre acreditou no milagre do Pêpêdê.

Sendo electricista, era como se tivesse visto a luz, que na verdade havia chegado, bem como a água, a estrada e o centro de saúde. Compreendo este enaltecimento de uma modernidade que se fazia à vista desarmada. Mas também não me esqueço que não poucas vezes levantava meu tio a voz, indagando se outros a quem se lhes desse a oportunidade de governar não fariam melhor.

Defendo que o passado deve escrever-se e deve descrever-se de forma fidedigna, reconhecendo-se o que de bem feito foi, mas também os erros, as opções desastrosas, o esbanjamento e o clientelismo. Mas que não se deite areia para os olhos seja de quem for, com um estudo de muitos milhares de euros, o “Deve e Haver das Finanças da Madeira (séculos XV a XXI)”, para comprovar que a Madeira não é despesista. Queremos um ajuste de contas, sim, mas a partir de 1978 e com todos aqueles que tiveram responsabilidades políticas nesta Região.

Não podemos consentir que se continue com discursos falsos que justificam este estado de coisas que nos embrutecem como pessoas e nos desclassificam como membros de uma sociedade democrática. O grande desafio será o de escrever o amanhã com outras linhas, com outros sinais, com outra linguagem. Estou certo, se o meu avô e o meu tio estivessem vivos, concordariam comigo.

Paulo Cafôfo