Um dos textos mais comoventes que conheço é uma carta de Rosa Luxemburgo escrita a uma amiga sua quando estava na prisão de Breslavia Um dos textos mais comoventes que conheço é uma carta de Rosa Luxemburgo escrita a uma amiga sua quando estava na prisão de Breslavia, poucos meses antes da sua execução. Trata-se de um extraordinário hino à vida. No meio daquele horror, sentindo abater-se sobre ela toda a desolação e desconforto que podemos imaginar (ou que nem podemos imaginar), Rosa Luxemburgo não deixa de confiar na vida. Mergulhada no escuro ela continua a sorrir. E quando se pergunta porquê, escreve isto: “não tenho razão para esta injustificável alegria, nem sei de outro segredo senão a própria vida. A profunda obscuridade da noite é bela e suave como um veludo para os que aprendem a olhá-la”. Esta é a primeira parte da carta. A segunda não é menos inesquecível. Rosa vê chegar à prisão carroças de mantimentos arrastadas por búfalos capturados na Roménia e exibidos como um troféu. E, pela primeira vez, ela repara na dor dos animais. É um choque e uma revelação. Quando se atreve a pedir “um pouco de compaixão” para as criaturas extenuadas, o cocheiro responde-lhe com violência: “nem para os homens há compaixão”. E castiga mais duramente os búfalos. O olhar de Rosa Luxemburgo fixa-se, então, no de um deles que sangra. Ele estava completamente em silêncio, olhava para diante com os olhos mais mansos que ela alguma vez conhecera, e nesses olhos havia o desamparo de uma criança que tivesse chorado sem que fosse ouvida por longo tempo. E então Rosa escreve: “Oh meu pobre búfalo, meu pobre e amado irmão, ambos estamos impotentes e humilhados, mas somos como que uma coisa só na dor, na fraqueza e no desejo”. Na empatia que avizinha aquela mulher de um animal ferido nasce uma forma de resistência à brutalidade e à barbárie. Compreender que uma comunhão entre os seres humanos e as outras criaturas é não apenas possível mas necessária torna-se uma experiência profética. A carta de Rosa Luxemburgo foi escrita durante a I guerra mundial, e ela percebeu que o verdadeiro processo de libertação em que nos temos de empenhar é aquele que não opõe o bem do homem ao bem dos animais. É isso, por exemplo, que a religião bíblica, judaica e cristã, ensina em muitas passagens centrais. Logo a seguir ao dilúvio, por exemplo, Deus diz a Noé e aos seus filhos: « “Eis que estabeleço a minha aliança convosco, com a vossa descendência depois de vós, e com toda a alma vivente que convosco está, sejam as aves, o gado ou todo o animal terrestre que está convosco. Eu estabeleço a minha aliança, e juro que não será mais destruída toda a carne pelas águas do dilúvio, e não mais haverá dilúvio para destruir a terra”. E disse Deus: “Este é o sinal da aliança que ponho entre mim e vós, e entre toda a alma vivente, que está convosco, por gerações eternas” » (Gen 9,8-13). Há dias deparei-me com uma entrevista a Aldo Capitani, um dos mentores dos encontros inter-religiosos de Assis, e um grande teórico da não-violência. Confesso que fiquei a pensar. Dizia ele: «Quando encontro uma pessoa ou do mesmo modo um simples animal não posso admitir que aquela vida se apague no nada, morra e se extinga, à maneira de uma chama. Podem até dizer-me que a realidade é assim, mas não aceito. E se pondero com mais cuidado, encontro ainda outras razões para não aceitar tal coisa, porque não posso aprovar que a besta maior devore a besta mais pequena, e que por todo o lado a força, o poder ou a prepotência prevaleçam: uma realidade feita assim não merece durar. É uma realidade provisória, insuficiente, e eu abro-me a uma transformação profunda, a uma espécie de libertação do mal nas formas do pecado, da dor e da morte. Esta é a que eu considero a abertura religiosa fundamental». Quando desaprendemos a compaixão com as criaturas que connosco partilham a aventura da criação não tenhamos dúvidas: Deus esconde-se. José Tolentino Mendonça

Um dos textos mais comoventes que conheço é uma carta de Rosa Luxemburgo escrita a uma amiga sua quando estava na prisão de Breslavia

Um dos textos mais comoventes que conheço é uma carta de Rosa Luxemburgo escrita a uma amiga sua quando estava na prisão de Breslavia, poucos meses antes da sua execução. Trata-se de um extraordinário hino à vida. No meio daquele horror, sentindo abater-se sobre ela toda a desolação e desconforto que podemos imaginar (ou que nem podemos imaginar), Rosa Luxemburgo não deixa de confiar na vida. Mergulhada no escuro ela continua a sorrir. E quando se pergunta porquê, escreve isto: “não tenho razão para esta injustificável alegria, nem sei de outro segredo senão a própria vida. A profunda obscuridade da noite é bela e suave como um veludo para os que aprendem a olhá-la”. Esta é a primeira parte da carta. A segunda não é menos inesquecível. Rosa vê chegar à prisão carroças de mantimentos arrastadas por búfalos capturados na Roménia e exibidos como um troféu. E, pela primeira vez, ela repara na dor dos animais. É um choque e uma revelação. Quando se atreve a pedir “um pouco de compaixão” para as criaturas extenuadas, o cocheiro responde-lhe com violência: “nem para os homens há compaixão”. E castiga mais duramente os búfalos. O olhar de Rosa Luxemburgo fixa-se, então, no de um deles que sangra. Ele estava completamente em silêncio, olhava para diante com os olhos mais mansos que ela alguma vez conhecera, e nesses olhos havia o desamparo de uma criança que tivesse chorado sem que fosse ouvida por longo tempo. E então Rosa escreve: “Oh meu pobre búfalo, meu pobre e amado irmão, ambos estamos impotentes e humilhados, mas somos como que uma coisa só na dor, na fraqueza e no desejo”. Na empatia que avizinha aquela mulher de um animal ferido nasce uma forma de resistência à brutalidade e à barbárie. Compreender que uma comunhão entre os seres humanos e as outras criaturas é não apenas possível mas necessária torna-se uma experiência profética. A carta de Rosa Luxemburgo foi escrita durante a I guerra mundial, e ela percebeu que o verdadeiro processo de libertação em que nos temos de empenhar é aquele que não opõe o bem do homem ao bem dos animais. É isso, por exemplo, que a religião bíblica, judaica e cristã, ensina em muitas passagens centrais. Logo a seguir ao dilúvio, por exemplo, Deus diz a Noé e aos seus filhos: « “Eis que estabeleço a minha aliança convosco, com a vossa descendência depois de vós, e com toda a alma vivente que convosco está, sejam as aves, o gado ou todo o animal terrestre que está convosco. Eu estabeleço a minha aliança, e juro que não será mais destruída toda a carne pelas águas do dilúvio, e não mais haverá dilúvio para destruir a terra”. E disse Deus: “Este é o sinal da aliança que ponho entre mim e vós, e entre toda a alma vivente, que está convosco, por gerações eternas” » (Gen 9,8-13). Há dias deparei-me com uma entrevista a Aldo Capitani, um dos mentores dos encontros inter-religiosos de Assis, e um grande teórico da não-violência. Confesso que fiquei a pensar. Dizia ele: «Quando encontro uma pessoa ou do mesmo modo um simples animal não posso admitir que aquela vida se apague no nada, morra e se extinga, à maneira de uma chama. Podem até dizer-me que a realidade é assim, mas não aceito. E se pondero com mais cuidado, encontro ainda outras razões para não aceitar tal coisa, porque não posso aprovar que a besta maior devore a besta mais pequena, e que por todo o lado a força, o poder ou a prepotência prevaleçam: uma realidade feita assim não merece durar. É uma realidade provisória, insuficiente, e eu abro-me a uma transformação profunda, a uma espécie de libertação do mal nas formas do pecado, da dor e da morte. Esta é a que eu considero a abertura religiosa fundamental». Quando desaprendemos a compaixão com as criaturas que connosco partilham a aventura da criação não tenhamos dúvidas: Deus esconde-se.

José Tolentino Mendonça