A Saúde deve estar ao serviço das pessoas e não dar prioridade a obras inúteis. A nossa democracia e autonomia não foram capazes de, em quarenta anos, construírem um novo hospital que substituísse todas as unidades envelhecidas e desactualizadas que servem a nossa Região Autónoma. Apesar de hoje termos muito mais médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde, muito mais tecnologia e recursos, os nossos hospitais são piores, em termos estruturais e funcionais, do que eram no dia 25 de Abril de 1974. Nessa altura, a Madeira tinha um hospital novo e outros velhos, havia uma perspectiva de que o futuro seria melhor que o passado. Agora, o hospital que era novo está velho e descaracterizado e o que era velho está ainda mais gasto e usado. Aqueles que não gerem de forma competente o presente prometem um futuro melhor, mas o futuro da nossa Saúde está a ser comprometido por opções erradas que irão condicionar os próximos responsáveis pelo sector. As obras que decorrerem neste momento no “hospital novo” desvirtuaram o projecto original. Ao longo dos anos foram sendo acrescentadas especialidades médicas à estrutura original, fruto da evolução natural da medicina, foi acrescentada mais tecnologia, mais soluções para as novas necessidades, e nos últimos anos, principalmente depois da decisão de não avançar para Santa Rita, começou-se a construir desenfreadamente anexos em todos os pequenos terrenos disponíveis em volta do velho hospital. O campus hospitalar praticamente deixou de ter jardins, estacionamentos, fizeram-se demolições e novas construções, aproveitam-se terraços para construir por cima e não se encontra lógica e utilidade em tanta obra. Qualquer semelhança, entre este hospital e um qualquer morro pobre de uma cidade da América do Sul, não será coincidência. Em anteriores artigos de opinião referi a idade dos hospitais que nos servem, relembrei os valores que foram noticiados na comunicação social para o novo Hospital em Santa Rita (125 milhões), apontei os valores das obras anunciadas através dos jornais e questionei quanto é que iria custar a expansão (6 torres de 10 andares) para dentro da escarpa do Ribeiro Seco. Até agora não se sabe o custo total de tanta obra, mas não é preciso ser um génio no campo da gestão e da administração hospitalar para concluir que as obras, remendos, anexos, mais a solução encontrada para construir junto ao ribeiro, será mais uma solução muito mais cara do que se tivesse avançado o projecto de um novo hospital. Só isto já seria muito grave, mas as coisas ainda não ficam por aqui. Os maiores especialistas nacionais defendem a construção de novos hospitais se estes reduzirem os custos operacionais em 15% face às unidades que irão substituir. Depois de concluídas as obras, não ficaremos com um hospital novo. Continuaremos com um hospital velho, com anexos novos, iremos perder a oportunidade de reduzir os custos operacionais, iremos ter despesas de manutenção cada vez maiores e, ao acrescentarmos anexos a uma estrutura obsoleta, ineficiente e ineficaz, iremos ainda aumentar os despesas decorrentes da actividade. Para termos uma ideia do que aí vem, o actual edifício do hospital na Cruz de Carvalho tem 9 andares e os seus vários elevadores têm uma utilização intensíssima, ao longo de todo o dia. Imagine-se os custos mensais que esta estrutura terá, com elevadores, quando ao edifício actuais for acrescentado mais 6 torres de 10 andares que serão construídas dezenas de metros abaixo do actual hospital. Não é com este projecto de remodelação/expansão do Hospital que se irão resolver os problemas da Saúde na Região. Este projecto poderá significar apenas o adiar da resolução dos problemas, com a agravante de sair muito mais caro que a verdadeira solução para os mesmos. Não será com este projecto, de “remendos e acrescentos”, que a Madeira poderá aspirar a ter um Hospital Universitário e poder apostar no Turismo de Saúde. O tempo demonstrará quem é que hoje está certo. “Quando a verdade for demasiado débil para se defender terá de passar ao ataque.” – Bertolt Brecht
Duarte Nuno Dória, Gestor