As raposas matreiras às escondidas encontram-se nas esquinas com as aves e vão criando a ilusão de novos milheirais a breve trecho Na quinta, a agitação é enorme. As aves, tanto as de penas raras como as mais vulgares, que durante anos dominaram a área e esgravataram todo o terreno, não dando a possibilidade a outros animais para recolher comida e dar destino ao futuro da propriedade, nos últimos meses, andavam um pouco desalinhadas e tristes com a direcção da quinta pelos cães, associados aos coelhos, aos lobos e às raposas. Foram meses, cabisbaixas, culpando o galo-more outras aves de arribação que tinham trazido a penúria à raça. De repente, o cão resolveu ladrar mais alto para a raposa, provando que era ele quem dava as ordens. Os lobos e os coelhos, sentindo-se despeitados e ameaçados, decidiram fazer greve mantendo porém o lugar altaneiro de onde miravam toda a extensão da quinta. Começaram a pôr em causa o cão, que antes todos tinham escolhido para os liderar. É verdade que não se tinha compreendido bem o que é tinha levado o cão para ter um assomo daqueles, mas a reacção foi ainda mais estridente. O poleiro quase que não aguentava de tanto reboliço, de uns a empurrar outros para os derrubarem do posto. Ouviu-se até aquele som característico que anuncia o quebrar do galho e a coisa estava mesmo para rebentar. As aves cá em baixo, olhando para a triste figura que aquele conjunto de animais estava a fazer, sonharam alto. Gansos, patos, perus e galos desataram a dizer mal do cão e a louvar os coelhos, os lobos e as raposas, sonhando com o regresso a tão apetecido posto que durante anos foi só seu. “Bem dizíamos que aquele poleiro é só para gente de penas e o pelo daquelas outras raças de reles condição, não tem estatuto para tanto”! Algumas começaram a alisar as penas e a afiar os bicos porque para breve lhes estava reservado o local de onde nunca deviam ter saído! Era um desejado regresso saboroso e verdadeiramente humilhante para essa matilha em desgoverno! Não deixava de ser curioso ver e ouvir as aves, nos subentendidos, elogiarem a raposa e o lobo que antes tanto as tinham combatido. Na verdade o lobo e a raposa, na sua ânsia de protagonismo e com a vaidade matreira que os caracteriza, estavam a ser os maiores amigos das aves no combate ao cão que elas odiavam porque tinha sido ele, com aquela fileira de caninos à vista, que mais as tinha assustado conseguindo derrubá-las. Agora todos juravam que o grade havia de passar as tormentas do linho. Os outros animais, que eram a maioria da população da quinta, estavam estupefactos. Tinham gostado da mudança e agora já ouviam o esgravatar da terra, bem típico das aves que desejam o poleiro. Começaram a pensar que aquele agrupamento de animais tão inimigos, como o doméstico cão com a matreira raposa, o uivento lobo e o manso coelho, só com o propósito de abicar as aves, não tinha sido grande ideia. O cão, apercebendo-se do piar em crescendo, chamou o canil e resolveu por ordem na quinta: vai agora para o mando só quem possa fazer parte da raça dos canídeos. Raposas, lobos e coelhos, passam para um segundo plano, sobressaindo exclusivamente o faro e o ladrar. Basta de uivos, regougas ou chios! Dizem para aí que a Quinta ainda não sossegou. As raposas matreiras às escondidas encontram-se nas esquinas com as aves e vão criando a ilusão de novos milheirais a breve trecho. Os lobos, embora regressando à toca, continuam a alimentar a secreta esperança das noites de luar que anunciam cantares de galo madrugadores. O que ainda virá? – pergunta a maioria dos animais. A fábula se calhar está incompleta e a realidade por vezes é sempre mais rica. Mas há uma moral que se pode desde já retirar: Para se governar a quinta não basta tirar o poleiro às aves, misturando animais de tão distinta natureza. Ricardo Vieira
As raposas matreiras às escondidas encontram-se nas esquinas com as aves e vão criando a ilusão de novos milheirais a breve trecho
Na quinta, a agitação é enorme. As aves, tanto as de penas raras como as mais vulgares, que durante anos dominaram a área e esgravataram todo o terreno, não dando a possibilidade a outros animais para recolher comida e dar destino ao futuro da propriedade, nos últimos meses, andavam um pouco desalinhadas e tristes com a direcção da quinta pelos cães, associados aos coelhos, aos lobos e às raposas. Foram meses, cabisbaixas, culpando o galo-more outras aves de arribação que tinham trazido a penúria à raça.
De repente, o cão resolveu ladrar mais alto para a raposa, provando que era ele quem dava as ordens. Os lobos e os coelhos, sentindo-se despeitados e ameaçados, decidiram fazer greve mantendo porém o lugar altaneiro de onde miravam toda a extensão da quinta. Começaram a pôr em causa o cão, que antes todos tinham escolhido para os liderar. É verdade que não se tinha compreendido bem o que é tinha levado o cão para ter um assomo daqueles, mas a reacção foi ainda mais estridente. O poleiro quase que não aguentava de tanto reboliço, de uns a empurrar outros para os derrubarem do posto. Ouviu-se até aquele som característico que anuncia o quebrar do galho e a coisa estava mesmo para rebentar.
As aves cá em baixo, olhando para a triste figura que aquele conjunto de animais estava a fazer, sonharam alto. Gansos, patos, perus e galos desataram a dizer mal do cão e a louvar os coelhos, os lobos e as raposas, sonhando com o regresso a tão apetecido posto que durante anos foi só seu. “Bem dizíamos que aquele poleiro é só para gente de penas e o pelo daquelas outras raças de reles condição, não tem estatuto para tanto”! Algumas começaram a alisar as penas e a afiar os bicos porque para breve lhes estava reservado o local de onde nunca deviam ter saído! Era um desejado regresso saboroso e verdadeiramente humilhante para essa matilha em desgoverno!
Não deixava de ser curioso ver e ouvir as aves, nos subentendidos, elogiarem a raposa e o lobo que antes tanto as tinham combatido. Na verdade o lobo e a raposa, na sua ânsia de protagonismo e com a vaidade matreira que os caracteriza, estavam a ser os maiores amigos das aves no combate ao cão que elas odiavam porque tinha sido ele, com aquela fileira de caninos à vista, que mais as tinha assustado conseguindo derrubá-las.
Agora todos juravam que o grade havia de passar as tormentas do linho.
Os outros animais, que eram a maioria da população da quinta, estavam estupefactos. Tinham gostado da mudança e agora já ouviam o esgravatar da terra, bem típico das aves que desejam o poleiro. Começaram a pensar que aquele agrupamento de animais tão inimigos, como o doméstico cão com a matreira raposa, o uivento lobo e o manso coelho, só com o propósito de abicar as aves, não tinha sido grande ideia.
O cão, apercebendo-se do piar em crescendo, chamou o canil e resolveu por ordem na quinta: vai agora para o mando só quem possa fazer parte da raça dos canídeos.
Raposas, lobos e coelhos, passam para um segundo plano, sobressaindo exclusivamente o faro e o ladrar. Basta de uivos, regougas ou chios!
Dizem para aí que a Quinta ainda não sossegou. As raposas matreiras às escondidas encontram-se nas esquinas com as aves e vão criando a ilusão de novos milheirais a breve trecho. Os lobos, embora regressando à toca, continuam a alimentar a secreta esperança das noites de luar que anunciam cantares de galo madrugadores.
O que ainda virá? – pergunta a maioria dos animais.
A fábula se calhar está incompleta e a realidade por vezes é sempre mais rica. Mas há uma moral que se pode desde já retirar: Para se governar a quinta não basta tirar o poleiro às aves, misturando animais de tão distinta natureza.
Ricardo Vieira