Diz que as eleições europeias são de longe as que menos motivam os portugueses a irem votar. É sabido o descrédito que a classe política goza e vai fazendo por gozar na opinião pública.

Mas foi um decano deputado da Assembleia da República que considerou um lugar no Parlamento Europeu uma ‘prateleira dourada’, bem melhor que a gaiola do filme.

Neste exercício de falar para cá e para lá, albardando o discurso à vontade do burro (numa interpretação livre do provérbio), espanta-me que não haja mais ‘lapsus linguae’ a assinalar, que é como quem diz fugas de boca para a verdade.

Fica feio, porém, e é chato. Ocorre-me mil razões para que Alberto João Jardim não tenha aceite o convite envenenado de Pedro Passos Coelho, que está um mestre na arte irritar a arara da Quinta Vigia. Que é ele quem destina o seu percurso político, que não precisa de alguém de Lisboa para o empurrar daqui para fora, já tem muitos candidatos à função, que prefere ir a Bruxelas muitas vezes a se mudar de vez. Que está na hora de se reformar de verdade e passar de deixar de acumular vencimento e pensão.

Podíamos estar aqui o dia todo nisto, mas o que ocorreu ao ponta-de-lança jardinista de Lisboa, foi que o líder insular nunca aceitaria uma prateleira dourada, numa altura que os madeirenses estão mais preocupados com as prateleiras vazias e querem lá saber se Jardim, que já nem nos adros das igrejas se safa, acaba a carreira no Funchal ou em Bruxelas.

Depois vêm carpir para a praça pública quando as Grândoladas interrompem os trabalhos parlamentares ou outros. E os números da abstenção, aqui-d’el-rei e que o trabalho do deputado é subvalorizado.

Se eu não me respeitar, quem me respeitará? (numa adaptação livre do slogan do anúncio)

E por fim, uma dúvida: Nesta lógica a Assembleia da República será a prateleira prateada dos embalsamados? E a Legislativa?