“Não há nenhum tratamento”, diziam há 3000 anos os papiros egípcios sobre o cancro. Até ao século XX, estavam certos. Agora já não. Sabemos que 38% dos doentes oncológicos madeirenses estão vivos ao fim de 5 anos e, muitos desses, nem virão a morrer pelo cancro. Na região Norte de Portugal, essa sobrevivência ascende a 60%, ou seja, a maioria dos nortenhos acossados pelo cancro estão vivos ao fim de 5 anos. Como são possíveis os melhores exemplos de sobrevivência? Bem, pela combinação precisa e precoce do bisturi do cirurgião, da quimioterapia calibrada pela genética do tumor e pela radioterapia certeira nas células cancerosas rebeldes. Mas também pela argúcia no diagnóstico precoce do médico de família, pela coragem e informação dos doentes, pela determinação dos profissionais, pelo apoio das famílias, amigos, associações e a Segurança Social. Igualmente por alguns políticos que, a cada dia, priorizam a saúde e a gerem com transparência. Um exemplo, a Leucemia Mieloide Crónica originava há 20 anos uma mortalidade de 70%. Hoje, em alguns países, menos de 10%. Os 14 milhões de novos casos de cancro anuais pressionaram, segundo a OMS, uma corrida à investigação de novas drogas, ao mapeamento genético exaustivo dos diferentes tumores, em que cada mutação tumoral é catalogada e uma terapêutica testada. Mais de 250 grandes ensaios clínicos decorrem em todo o mundo, alguns em Portugal. O que é preciso fazer para melhorar a sobrevivência oncológica na Madeira? Primeiro, ter a humildade de reconhecer que os números são, digamos assim, menos bons. Permitam-me algumas observações: a prevenção não pode ser tímida e estar ausente da comunicação social. Não há diagnósticos precoces se a maioria da população não tem Médico de Família. Se só há 2 médicos de Oncologia na Madeira, então porque não destacar outros médicos diferenciados para colaborar, em certas áreas, sob a orientação dos primeiros, como em outros centros? Criar uma Via Verde de Oncologia, em que os exames radiológicos não demorem e que ninguém fique sem diagnóstico. Que não sejam ultrapassados os tempos de espera estabelecidos para cirurgia oncológica, mesmo com recurso à privada, tal como no programa SIGIC do continente. Igualmente, o direito de uma segunda opinião, como já existe no SNS. Uma clarificação das regras de assistência fora da Madeira, nomeadamente nos IPO´s, para que sejam médicos e não gestores financeiros a decidir por critérios transparentes e justificações se houver recusas. Uma forma ágil para que os doentes diagnosticados na privada possam aceder à Oncologia do hospital com a mesma celeridade. Uma auditoria médica independente para que as carências e racionamentos que violem as Normas de Orientação Clínica em vigor sejam identificadas e ultrapassadas. Voltar a apostar na Unidade da Dor, dando os recursos que já teve no passado. Não é preciso inventar nada! Bastam duas premissas: usar os melhores exemplos que existem no país e voltar a ter a saúde como uma prioridade do nosso orçamento regional. No essencial, isso não será feito pelos doentes ou profissionais, mas sim pelos eleitores madeirenses.
Mário Pereira Deputado do CDS na ALM