Em matéria de consensos, a sociedade portuguesa já deu provas de inteligência e suficiente maturidade cívica e cidadã, do seu alcance e pertinência. Começou logo com a adesão espontânea ao movimento dos capitães, há quarenta anos, graças ao qual muitas das vozes que agora defendem teorias nostálgicas de tempos idos, ganharam lugar no reino da opinião pública e publicada. Logo depois foi a adesão à filosofia do Serviço Nacional de Saúde, que permitiu – nunca é demais repeti-lo – sairmos de miseráveis estatísticas terceiro-mundistas de mortalidade infantil e materna e que os defensores do evangelho neo-liberal querem destruir e transformar num negócio que irá condenar à morte quem não pode pagar, e o país ao retrocesso social e humanitário.
Consensual também foi o movimento nacional que esteve na base da aprovação e consagração do Direito à Educação na Lei de Bases do Sistema Educativo na Assembleia da República, em Outubro de 1986 – sem o CDS, relembre-se! – objectivo civilizacional de modernidade, (que ainda falta cumprir, segundo a OCDE) já que à data de Abril, um em cada quatro portugueses era analfabeto, graças às políticas do anterior regime, de que tanta gente parece ter saudades, vá lá saber-se porquê! Estudar um bocadinho de História faz sempre bem, contrariamente ao que algumas luminárias pregam no púlpito das manhãs e tardes televisivas com aplausos pagos, conveniente ignorância e doses massivas de demagogia.
Outro momento alto de consenso emotivo e poético foi o levantamento nacional por Timor, em 1999. Entre outros. Não nos venham portanto pregar lições sobre a importância dos consensos para além do espectro político-partidário do enquadramento ideológico da dicotomia esquerda-direita. E não só no nosso país! Se formos à História recente do século XX, veremos que a generalização do Estado Social, no pós-segunda guerra mundial, aconteceu como desígnio civilizacional na Europa democrática com governos desde a Democracia Cristã ao Socialismo Democrático ou Social-Democracia, doutrinas adulteradas por partidos que no momento actual, de tal designação apenas têm o nome. Foi esse Estado Social que possibilitou a utopia da União Europeia baseada na Solidariedade, que agora periclita na ganância financeira.
Bem pode o magistrado de Belém apelar ao consenso. As reacções inflamadas contra o manifesto dos 70, um documento de lúcido bom-senso – afinal o consenso por si defendido em livro - mostra bem o que querem os responsáveis políticos do país, governo e Presidente da República: anuência colectiva com a política e o discurso oficial; tudo o que se afaste dos cânones dos apóstolos do ajustamento e da austeridade: o embaratecimento do preço do trabalho, - a competitividade! - e o empobrecimento da população, é para condenar à fogueira. Este é o canto das sereias da via única para sair da crise. Os cinzentismos dos “desentendimentos insanáveis” que rimam com “decisões irrevogáveis” – lembram-se? – não são de molde a levar o povo a construir consensos “fiáveis” sobre o que se esconde atrás do preço a pagar pelo equilíbrio das contas públicas… De verdades e mentiras já falava o poeta Aleixo!
Neste país de brandos costumes, não é de bom-tom pensar diferente do discurso oficial. Até se o pode fazer, mas baixinho, pianinho, sem que ninguém ouça. Mas manifestá-lo, pouco. É de uma inconveniência grosseira. Cria clima de crispação entre o relacionamento institucional, pouco saudável a uma boa impressão nos nossos credores, agora que vamos entrar na campanha para as europeias, como bem recomenda o senhor Presidente. Bom mesmo é seguir o status quo, enquadrar a entourage do discurso mainstream. Tudo isto revela o muito que falta aprender em cultura democrática, em negociação e compromisso. Que consensos quando se vislumbra a destruição do país? Ainda não se aprendeu que em democracia, termos todos a mesma opinião sobre tudo cheira a totalitarismo. E sobre isso, se a memória já esqueceu, estude-se um bocadinho de História ou leia-se, por exemplo, Hanna Arendt. Ou “Os jogos da Fome!” Ajuda a perceber.
É absolutamente desconcertante, aterrador, até, analisar ou sequer prestar atenção ao conteúdo das comunicações de vários dirigentes políticos ligados à maioria que governa hoje o país. Será que eles se ouvem? Não estamos melhor do que há três anos, não senhor, por muito que todos os analistas políticos, comentadores e fazedores de opinião arregimentados e mediáticos se esforcem histericamente por demonstrar. Onde o apregoado sucesso e milagre económico quando temos gerações jovens a quem os pais e avós – reformados e não só - têm de ajudar a pagar as contas de uma sobrevivência com um mínimo de dignidade? Que parte do país está melhor hoje do que em 2011? Onde é que a economia está a crescer? Nos números do desemprego e emigração? O que é que as pessoas ainda não perceberam? A dor que se sente na alma pelo futuro dos filhos comprometido? Consenso só se for na indignação lúcida!
E quando temos dados da OCDE que referem a destruição de 2700 empregos por semana, em que “seis em cada dez profissionais no desemprego” não recebe qualquer subsídio, (Expresso de 22 de Março), aliado ao agigantar da dívida e da dependência externa; quando já se apregoa sem pejo, o que já se adivinhava: que o pior ainda está para vir, (aguarde-se o Documento de Estratégia Orçamental lá para Abril) que isto é para durar, mais 20 anos de cortes constantes, custe o que custar; quando ao homem que se lixa para as eleições não custa bater nos mais fracos, já que na sua cartilha – e não só – o que custa é a primeira pancada, quais consensos? A quem se lhe opõe - a esquerda toda, espera-se! - só há uma obrigação ética: a necessária convergência na firme afirmação de que outro caminho é possível. Face à imolação de uma geração inteira, carne para canhão nesta maldita guerra financeira revanchista contra os direitos sociais, o tempo não é de rodriguinhos e broculozinhos sobre questões identitárias pressionadas pelo calendário eleitoral, de quem é a verdadeira esquerda. O povo entenderá a urgência consensual do dever de convergência contra a destruição da esperança num país com quase 900 anos de História! Pode-se sempre começar pelo lúcido consenso do Manifesto dos 70!
Júlia Caré