Há não muito muito tempo, havia uma pequena e singela Quinta conhecida por ser de Lordes mas que na verdade pertencia à Congregação dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz. Em 1996, elementos de uma família com olho para o negócio, Sousa, convenceram a Congregação a lhes vender a Quinta por tuta e meia, afinal ali não se podia fazer grande coisa pois era Reserva Natural, Sítio da Rede Natura, Domínio Público Marítimo e, pelo POTRAM, zona natural de uso fortemente condicionado.
Mas como nesta terra uns são filhos e outros enteados, os novos donos mexeram uns pauzinhos e eis que, pondo Jesus Cristo a um canto, conseguem fazer o milagre da multiplicação. Qual proibição de conceção de usos privativos do Domínio Público Marítimo por falta dos POOCs?! Qual Reserva Natural da Ponta de São Lourenço?! Qual Sítio da Rede Natura?! Qual zona natural de uso fortemente condicionado?! Qual quê?! Isso não existe! E eis que com a preciosa ajuda de uma outra Quinta, a da Vigia mas que já parece outra vez das Angústias, com o jeitinho de um certo Procurador do Ministério Público, com o contorcionismo da Câmara Municipal de Machico, com um parecer manhoso do Parque Natural da Madeira, e com outras farinhas do mesmo saco, conseguem cilindrar as regras que são só para os outros e construir de raiz uma nova cidade, com marina e tudo, no meio de uma Reserva Natural. E ainda conseguem um brinde, apropriar-se ilegalmente e vedar o acesso a uma praia que era pública.
Onde andavam os ambientalistas para deixar que isto acontecesse? Estiveram calados? Não se mexeram? Não! Falaram alto e a bom som. Vociferaram. Gesticularam.
Pressionaram. Fizeram queixas no Ministério Públicos. Processos em Tribunal. Denúncias na Comunidade Europeia. Resultados? Nada! Nenhuma entidade regional, nacional ou internacional agiu. Deixaram construir e funcionar a Quinta do Lorde. Os ambientalistas, tal como fizeram a Jesus Cristo no milagre da multiplicação, foram metidos num chinelo, venceu a força do dinheiro e do negócio.
Mas os tempos também já não estão fáceis para o dinheiro e para os negócios. A Quinta do Lorde teve mais olhos que barriga e não consegue vender o seu investimento.
A Quinta do Lorde está à rasca, não consegue atrair financiamento e já ameaça os seus funcionários com despedimentos. Mas Sousa que é Sousa não é tonto. E eis que conseguem obrar novo milagre (Jesus Cristo já está bem lá para trás). Contra quem julga o leitor que eles arregimentaram o descontentamento dos funcionários a quem não querem pagar salários? Pois é! Contra os ambientalistas que nesta terra nunca conseguiram ganhar uma batalha que fosse. E esta hein?!
Hélder Spínola