Já passava das onze da noite. Deambulava pelas ruas de São Bento, depois de um jantar de família, a caminho de mais uma das inúmeras casas que foram minhas nem que fosse por um par de horas. Sentia-me um vagabundo, como tantas outras vezes. Mesmo que seguisse pela calada da noite sem prestar atenção a nada, à parte o deslumbramento que só Lisboa oferece nestas noites calmas e serenas, a palavra “Desassossego” despertou-me do torpor nocturno. Era um clube literário, ainda por cima aberto aquela hora. De tão convidativo se apresentava, venci a hesitação e entrei discretamente. Só lá permanecia mais uma alma, com tanto sono como eu. Fui percorrendo lentamente as prateleiras, cheias de livros, de histórias, de vidas, de outros mundos. E de repente lá estava. Fiquei uma eternidade parado naquele momento, como que em choque, sem saber se seguia em frente ou pegava numa parte de mim mesmo. Acabei por o tirar da estante, com cuidado, como se de um filho meu se tratasse. E quase o é. Folheei-o, lentamente, e li as mesmas palavras que tinha escrito por esse mundo fora, vi as imagens de tantas viagens e revi mentalmente a minha vida de quatro anos, espelho de outros tantos. Há bem pouco tempo, tinha reflectido no processo que levara a que aquele momento ali fosse uma realidade, enquanto anonimamente lia o meu próprio livro. Flutuo entre o “nunca mais” e o “valeu a pena”, uma frase tantas vezes repetida. Mas essa tem sido a minha sina. Que não se resolveu ali. Voltei a colocá-lo no mesmo sítio e pensei se no dia seguinte, qualquer outra pessoa faria o mesmo que eu. E se o lesse, o que daí resultaria? Talvez nada mais do que um preencher de tempo morto. Ou talvez algo mais. Essa é a magia dos livros. Para quem os escreve e para quem os lê. Eu gostei de escrever. Ou, melhor dizendo, precisei de o escrever. E escrevi-o para mim acima de tudo. Fi-lo para que numa qualquer noite, voltasse a me descobrir e a acreditar que tudo é possível. E fui dormir, levando comigo fantasmas e sonhos, pesadelos e conquistas. Fui dormir num desassossego. Pois só assim sei viver...

João Rodrigues Atleta olímpico