Cipriano Gouveia É bem visível que todo ser humano só tem uma cara. Mas ele não, ele tinha duas. E não era uma máscara carnavalesca colocada sobre a face. Nem tão-pouco se trata de julgar se era bipolar ou isso, nem sequer se coloca a questão se era falso ou não. Certo e visto é que aquele fulano tinha duas caras fisicamente reais, verdadeiras, de carne e oso. Uma ao lado da outra na mesma cabeça. Isso sim; eram ligeiramente desiguais e cada uma tinha a sua personalidade e eram extremamente divergentes, até pareciam não fazer parte do mesmo sujeito. Uma tinha bigode a outra não. Uma era redonda a outra alongada. E lá estavam os dois rostos, um ao lado do outro sobre o mesmo pescoço. Há coisas decididamente inacreditáveis mas ele era mesmo assim e pronto. Todas as tardes chegava afogueante. Pousava a pasta de cabedal sobre a secretária e suspirava com um sorriso muito matreiro tentando desculpar-se por causa das suas ordinárias demoras, e dizia, disse: Eu acho que… E segurando os dois queixos, tentou encontrar o conteúdo do pensamento, (ninguém sabe com exatidão qual era a sua proveniência) mas logo lembrou-se e declarou em tom militar: - As causas moldam o indivíduo e as suas decisões! Logo apoiou as duas mãos sobre a secretária e inclinando para a audiência afirmou honestamente: «Não tenho certezas. “O conhecimento das coisas é perfeito mas impossível” Eu tenho é uma inquietação na mão. - Idiota! Não é só numa! É nas duas! Recriminou a cara que pestanejava imparavelmente, essa, a segunda cara, era a mais penetrante, depois não disseram mais nada. A partir daquela tarde em que os ouvintes questionaram porquê tinha duas caras, explicou que cada pessoa é como é e que esse facto não era motivo de debate e, em simultâneo numa cara colocou os óculos e à outra secou-lhe uma lágrima e um pingo de ranho. Terminada a sessão abriu a pasta, espreitando concentrada e demoradamente lá para dentro. Ele gostava de olhar com assombro para tudo o que são espaços, fazia-o com uma dedicação cerimonial, talvez ao olhar para dentro, a primeira cara contemplasse o lado fantástico da vida, enquanto a outra, a segunda, enxergasse o absurdo-horror do mundo real. Ele sentia uma enorme atração pelas coisas duplas era uma condição dir-se-ia própria das duas caras. Quando todos saíram guardou os objectos que sobre a secretária estavam à espera: óculos, papéis, marcadores, lápis, canetas e eteceteras. Pegou na pasta e depois de avançar os primeiros passos para sair da sala de regresso a casa ou quem sabe para um sítio inexistente, de repente levantou as mãos e principiou a desatarraxar a cabeça pois era desatarraxável. Há quem diga que agora leva a cabeça nas mãos. Outros dizem que vai pela vida fora de cabeça perdida.