No filme “2001: Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, há uma cena memorável onde o astronauta Dave Bowman desactiva os circuitos de memória do supercomputador HAL 9000. À medida que Dave vai desligando os circuitos, ouvimos a voz mecânica de HAL 9000 suplicando de forma fria e monocórdica: “Dave. Para. Podes parar? A minha mente está a desaparecer. Estou a sentir isso, Dave”. Por vezes, sinto-me como o HAL 9000, como se o meu poder de concentração estivesse a ser desligado por uma entidade externa. E talvez esteja! Começo a desconfiar que o nosso mundo acelerado, que exige uma produtividade cada vez maior e tenta encorajar a nossa capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo (o famoso “Multitasking”) pode estar a eliminar o nosso poder de concentração. Estamos habituados a trabalhar durante as férias, fazer almoços de negócios e já vi pessoas no ginásio a ler enquanto estão na passadeira! A energia que utilizamos para fazer várias coisas simultaneamente é superior à energia e concentração necessárias para fazer cada uma das tarefas individualmente. E se não estamos completamente focados numa tarefa, diz-nos Daniel Goleman no seu mais recente livro - “Foco”, é pouco provável que seja feita de forma excelente. Um dos exercícios que ajudou a melhorar a concentração foi a leitura de textos mais longos, um regresso aos livros de Dostoevsky, Asimov e Clarke. Se calhar, Mark Twain tinha razão de várias formas quando dizia que “alguém que não lê não tem vantagem nenhuma sobre alguém que não sabe ler”.
Roberto Macedo Alves Desenhador de BD