Como toda a gente sabe, as iguarias típicas do entrudo, mais recentemente conhecido também por Carnaval, são as malassadas e os sonhos, além do cozido com grelos, claro. As malassadas são mais consistentes, os sonhos, mais ocos. Malassadas ou sonhos? Pessoalmente prefiro os sonhos, que se comem molhados em açúcar ou em calda feita com açúcar, casca de limão e racha de canela. Mais recente, quando passou a existir dinheiro para o adquirir, também em mel de cana da fábrica do Ribeiro Seco. Se tivermos em conta a moda que ultimamente parece existir de dividir Turismo, em vários tipos - turismo gastronómico, turismo cultural, turismo disto, turismo daquilo - podemos muito bem vender estas iguarias ao nicho da gastronomia. Mas o Turismo é uma indústria com demasiada importância para a região, por isso escrevo com letra maiúscula, para ser retalhado. Em vez de nos preocuparmos com os ingredientes isoladamente, temos é de juntar todos aqueles que a Madeira tem e que mais ninguém tem, fazer um só bolo e vender o conjunto. Como o entrudo só se comemora uma vez no ano, os sonhos e as malassadas também só se fazem de ano a ano. Por vezes fico com a ideia de que, no Turismo, também há sonhos que se repetem de vez em quando. Por estes lados, tenho a sensação que normalmente são por alturas da festa do Rosário, e só de 4 em 4 anos, mas não tem nada a com os anos bissextos, por exemplo o ano passado foi um deles. À semelhança dos sonhos do entrudo são sempre mais ou menos iguais, dependendo apenas do pasteleiro, uns com mais ou menos ovos, mais ou menos farinha do que outros. Isto para não falar dos pasteleiros/cozinheiros que, tal como eu, dessa matéria apenas sabem pegar no garfo e na faca (isto quando não se come com a mão, como o caso dos sonhos) e quando metem a mão na massa, ela nunca chega a levedar. Enfim, só sai asneira. Por isso, em vez de sonhos para oferecer aos poucos Turistas que apreciam essa iguaria, vamos mas é cozinhar um prato com os vários ingredientes que cada um tem para deitar dentro do tacho e convidar toda a gente a provar o nosso produto final. E, claro, acompanhado de um vinho madeira, uma laranjada ou nem que seja só uma água da fontinha do carvão de São Vicente.

Joel Freitas Presidente da ACIN