A noite que se aproxima é de celebração. Comemora-se o que se espera que seja um tempo melhor, despedindo-nos, com sobranceria do tempo que, afinal, nos permite comemorar o que quer que seja. É uma festa estranha. Deitamos os foguetes e apanhamos as canas. E se é verdade que sempre estranhei que se comemorasse antes de existirem razões para tal, o que é também certo é que sempre comemorei. E este ano é especial. Ainda pensei ir à Madeira. Mas havendo greve da TAP prevista, comecei por procurar outras paragens nacionais. O Porto está cheio, Faro abarrota de turistas baratos e barulhentos e em Évora, não sei porquê, os preços da hotelaria subiram. Optei, pois, por ausentar-me do País. E começo por oferecer os meus serviços a quem quiser que eu leve, ou traga, alguma mala ou outros tantos envelopes. Vou numa perna e venho noutra, prometo. Não me enviem encomendas nem me façam visitas. Basta entregarem-me o que é para ser transportado que eu levo 15%. Desculpem. Levo tudo. Também faço desaparecer bancos e grupos económicos num ápice. Mesmo daqueles que têm accionistas privados, que emitem papel comercial, que financiam empresas dos próprios grupos com avaliações feitas por bancos de investimento de sua propriedade. E faço as coisas de tal modo que, no fim do dia, se alguém quiser saber quem deu tal fim ao património de muitos e à credibilidade do país bem pode .... E aprendi tudo numa pequena história - ficcionada e em nada identificável com o ano de que agora despedimos - que se conta em duas penadas. Na aula, a Professora perguntou ao menino João: quem escreveu os Lusíadas? O menino João, lavado em lágrimas, respondeu que não tinha sido ele. Chamados os pais do menino à escola e exposta a situação ao Pai, a resposta que a Professora obteve foi: se ele disse que não foi ele, é porque não foi. Ainda se fosse o mais novo, agora o João... nunca mente. Enervada com a situação, a Professora sai da sala e dirige-se ao carro. Vê que está a ser autuada e diz ao agente: hoje não Sr. agente. Hoje já me aconteceu tudo, perdoe lá isso. Responde o agente: então conte lá. Contada a história, eis que o agente encontra a solução: ó Professora, traga cá o meliante que eu arranco-lhe a confissão ao estalo. Mais intrigada com tudo e com cara de caso, chega a casa e o marido pergunta-lhe: querida, estás bem? Não, não estou. E conta-lhe tudo. Amoroso, o marido prepara-lhe um Madeira tónico (da Henriques e Henriques), faz-lhe o jantar e, ao deitar-se diz-lhe ao ouvido: querida, aquela história dos lusíadas tem a importância que tem, mas deita-te e amanhã quando acordares vais ver que, se calhar, foste tu que os escreveste. Este ano duas comemorações não deviam existir: a comemoração da detenção de Sócrates e a comemoração da queda do império dos Espírito Santo. É verdade que tanto num como em outro caso há factos a esclarecer - tal como os Lusíadas existem. E os deputados e o poder judicial, tal como a professora, querem saber. É facto que as respostas que os administradores e os detidos deram não convencem. Tal como as do João. No final da história, o mais certo, é que uma prescrição aqui e outra acolá, uma escuta deitada fora e outra ilegal levem a que fiquemos todos como a professora. É como gastar o dinheiro antes de sair a lotaria. Bom Ano de 2015.

António Cunha Vaz