Ao contrário da imagem bucólica que sugere a legenda latina do título, a mediocridade não é áurea, é férrea. Ela não traz o conforto de uma fraternidade horizontal, resquício de uma qualquer Idade de Ouro. Ela traz em si escrita o germe da pior, e mais férrea, ditadura que existe: a tirania informe do homogéneo, do nivelar por baixo que impede o livre emergir do singular e do seu mérito: a mais alta Liberdade desejável. Porque, efectivamente, a Liberdade não é neutra, ela só configura o livre ascender e apontar para o Alto, o caminho amplo da Evolução, e nunca o resvalar acéfalo para baixo, para os cárceres apinhados da involução e da ignorância. Por ser férrea na sua substância, a mediocridade gosta de estátuas, e quanto maiores, melhor. Desse modo ela fantasia o agigantar da sua matéria grosseira e grotesca em provocação blasfema ao que é verdadeiramente elevado, amplo e luminoso. Ídolos de ferro, embora superficialmente cobertos de ouro falso, e com os proverbiais pés de barro, também dourados à superfície, podem se aglomerar à entrada de todos os portos… Mas o futuro será na mesma do Pensamento e da sua claridade estelar. O grande filósofo Agostinho da Silva profetizou o valorizar futuro do que chamava uma «aristocracia do Espírito», de uma meritocracia do Ideal, e do pensamento construtor de elevação ética e estética. Um futuro em que poetas, filósofos, artistas e místicos enformem o caminho evolutivo em direcção a uma civilização mais justa, pacífica, bela e cosmopolita. Para tal temos ainda que ultrapassar a barreira do patético relativismo pós-moderno que advoga que tudo se equivale e é igualmente válido na mesma mixórdia sem referências elevadas. Só assim, talvez, à entrada do nosso porto, teremos um dia a declamação e distribuição de poemas de Herberto Hélder.
Miguel Santos “Espaço Às Artes - Cultura Ponto Zero”