Assim que se conheceram os resultados das eleições internas do PSD/M, foram logo os gritos e ecos de vitória. Miguel Albuquerque, depois duma travessia do deserto, árdua, quase solitária e penosa, alcançava por fim a vitória. Há que dar-lhe mérito e reconhecer o empenho e a “boa rebeldia” por uma causa – a dele, em que teve que acreditar. Em si, na sua causa, na sua capacidade e nos seus seguidores que, pela força de acreditar, foram aumentando, mesmo que no silêncio. E não há força mais forte que a da Fé. Do querer acreditar, de ter esperança. Foi aí, na minha opinião, que Miguel Albuquerque, ganhou o apoio crescente. Quando todas as luzes se apagam, a promessa duma luz, ainda que por mais ínfima no seu brilhar, move montanhas e multidões. Foi o grande e o único vencedor da noite. Ouvi pessoas, de tantos partidos e simpatias, a referirem que o grande derrotado da noite foi o Dr. Alberto João Jardim. Discordo. Os grandes derrotados desta eleição são, à partida, todos os partidos da oposição. Se havia algum candidato, de entre todos os candidatos, capaz de conseguir uma maioria absoluta numas eleições regionais, esse candidato era, com certeza, Miguel Albuquerque. E toda a oposição sabia e sabe bem disso. Todos deram graças aos céus pela “mudança histórica” para a Região, pelo chegar dum “novo ciclo político” mas, entre dentes, maldiziam a própria sorte e temem pelo seu futuro. Cada um à sua maneira, os partidos da oposição foram esperando pelo resultado das eleições no PSD/M. Houve lugar inclusive para umas coincidências, que eu acho estranhas, dumas notícias que foram saindo em vários jornais diários, nos dias anteriores às eleições no laranjal. Pareceu-me ser uma tática camuflada. Pobre, mas sim. De outro lado, silêncio e espera, interrompidos a espaços, por pequenos chilreados cor anil, apenas o suficientemente audíveis para percebermos que existe ali uma alma que respira. Respira e aguarda. E aguarda e aguarda. De outro lado ainda, o normal vociferar descabido e muitas vezes desenquadrado das vozes sempre contra tudo e todos – o direito à existência organizada dos revoltados. E sim. Alberto João Jardim também foi derrotado. Mais até, pela atitude “rezingona”que teve até o fim. Não tinha sido tão perdedor se se tivesse mantido contido e aparecido menos. Mas não consegue e, por isso, perdeu. Começa então este “novo ciclo político”. Resta ver se Miguel Albuquerque tem unhas para tocar uma guitarra com os vícios de 40 anos e um só guitarrista. Se consegue unir e sossegar os que sempre foram e estiveram, sem perder a “máquina” montada, a tempo de ir a votos numas eleições regionais antecipadas e conseguir a maioria absoluta que se propôs a alcançar no discurso da vitória. Quanto à oposição, se Miguel Albuquerque tiver sucesso e atingir esse objectivo, cabe também aos militantes da oposição exigir, em cada um dos partidos, um novo ciclo. CDS/PP e PS foram incapazes de trabalhar na construção duma alternativa consistente. Vão cada um por si e em si. Eterna e orgulhosamente sós. Numa altura, a única em 40 anos, em que se abriu uma brecha, uma vulnerabilidade, na muralha até agora intransponível do PSD. Se Miguel Albuquerque obtiver a maioria absoluta nas próximas eleições regionais, Vítor Freitas e José Manuel Rodrigues, se forem responsáveis e consequentes com as escolhas que ambos fizeram para os seus partidos, devem demitir-se tendo sempre presente aquela “ausência de estados de alma”, que está em voga entre os políticos “a sério”. Chamem-me radicalista. Já me chamaram coisas piores e sobrevivi. Uma alternativa constrói-se todos os dias ao longo de anos, com consistência feita de dedicação, assumir riscos, coragem e trabalho. Não se quer como coisa que passa para herdeiros em testamento. Miguel Albuquerque percebeu isso e ganhou. Governar dá trabalho e é uma enorme responsabilidade, mais ainda na conjuntura em que vivemos. E isso, é só para quem quer. Para já, quem ganhou foi só e apenas o PSD. Renovou-se e revigorou-se e o “laranja “começa de novo a ter uns tons verde-esperança. E os outros, também não.
Nuno Drummond