“O exemplo é a escola da humanidade e só nela os homens poderão aprender.” Edmund Burke Em Timor-Leste, o Dia da Mulher é comemorado a 3 de novembro de cada ano, em homenagem à heroína Maria Tapó e às mulheres da resistência. Maria Tapó No final de 1975, perante a ameaça de invasão indonésia, foram montados postos de vigia ao longo da fronteira. Em Tapó, Bobonaro, a 3 de novembro daquele ano, enquanto um militar almoçava, a sua mulher, Maria, ficou no seu posto de vigia. Nessa altura apareceram soldados indonésios. Maria resistiu, disparando, mas morreu na troca de tiros. Dia da Mulher As mulheres de Bobonaro escreveram ao Primeiro-ministro de então, Nicolau Lobato, contaram o sucedido e acrescentaram: “Nós, as mulheres de Tapó, não rendemos nem renderemos, lutaremos até à nossa última gota de sangue”. Nicolau Lobato ficou sensibilizado e decidiu que todos os anos, a 3 de novembro, as mulheres da resistência deveriam ser homenageadas. No corrente ano, as comemorações do Dia da Mulher tiveram lugar na cidade de Manatuto e foram presididas por Xanana Gusmão. Madalena Soares Durante estas comemorações, no passado mês de novembro, tive o prazer de conhecer Madalena Soares, uma representante das veteranas, mulheres que lutaram na resistência. Ela disse-me que “lutou durante 15 anos nas montanhas de Ramelau, Matabian e noutras, onde era necessário”. Um dia, numa emboscada, caiu, magoou-se no braço direito que ficou, para sempre, imobilizado. Passou os restantes 9 anos de ocupação na “frente clandestina”. Jantar imprevisto No final do dia, quando eu regressava a Dili com Francisco Cárceres, antigo veterano e agora Diretor-geral do Ministério da Justiça, tornámos a encontrar Madalena Soares em Obrato. Todos jantámos peixe assado com catupa. Ela estava acompanhada com um dos seus filhos. Perguntei se tinha mais filhos. Madalena Soares respondeu que apenas teve um filho que morreu ao nascer. Mas, tratou dos filhos de outros colegas que morreram na luta. Exemplo de cidadania O mais surpreendente foi o facto desta mulher, depois da independência, ter recusado a pensão de veterano a que tinha direito e ordenou que o dinheiro fosse entregue para ajuda da construção da escola “Nicolau Lobato Halibur” e outras escolas da sua terra, Bazartete, distrito de Liquiça. Madalena Soares lutou de corpo e alma, com sacrifício pessoal, para o bem do seu povo, em especial das crianças. Por esse motivo, tem sido publicamente apontada como exemplo de cidadania, inclusive, por Xanana Gusmão. *) Procurador da República

João Luís Gonçalves *