O meu colega Miguel Ferreira é um experiente ginecologista, reconhecido por muitas utentes madeirenses. Em 2008 foi-lhe solicitado pelo Dr. Jardim uma reforma profunda da saúde, reorganização que associasse menos custos a mais controlo político. No dia 18 deste mês de dezembro foi dispensado sem haver qualquer justificação pública.

Duas perguntas se levantam: porquê a dispensa e porquê no dia 18? A segunda resposta é óbvia: os dois candidatos à liderança do PSD, ainda Secretários deste governo, não conseguiam apoios no sector da saúde tal o descontentamento existente. A dispensa de Miguel Ferreira, na véspera do voto interno, serviria para acalmar os militantes.

Decorridos seis anos com esta gestão da saúde, a primeira resposta também é clara: Miguel Ferreira iniciou a gestão hospitalar com 11 mil madeirenses à espera de cirurgia, saiu agora com 17 mil.

Entrou a defender a reparação e ampliação do nosso hospital em vez de construir um novo e moderno. Sai sem que ninguém já lhe dê crédito, excepção para os lóbis ligados à construção civil do jardinismo.

Entrou empunhando a “bandeira” da moralização da classe médica, sai mantendo inúmeras benesses e favorecimentos por explicar. Ao mesmo tempo não existe meritocracia e impera o desânimo entre os profissionais.

Sai, ainda, como o gestor que mais desprezou os cuidados de enfermagem, os Cuidados de Saúde Primários e a prevenção das doenças. Não estranhem agora o aumento da mortalidade verificado entre os madeirenses.

Entrou unificando vários serviços para conseguir o tal controlo político da saúde, mas esqueceu-se de que a salutar competição é o maior catalisador da qualidade em saúde. Sai agora após ter acabado com o programa “King´s Fund” de qualidade do hospital.

Entrou a defender a concentração de exames no serviço público, algo ao “estilo” pré-perestroika, mas o resultado são 22 mil doentes à espera de exames radiológicos, o que certamente está na origem da desastrosa sobrevivência oncológica regional.

Entrou impondo a hierarquia. Lembro-me da afirmação de que quem não obedecesse seria castigado, mais: se o colaborador fosse dedicado e competente, o castigo seria duplo para que o exemplo perante a instituição fosse também duplo. Lembro-me, aliás, de médicos que, ao denunciarem as carências do hospital, acabaram encaminhados para consultas de psiquiatria. Não conheço nenhum “guru” da gestão que defenda este tipo desprezo pelos recursos humanos. Acredito firmemente que não se pode gerir a saúde sem um profundo sentido humano, de justiça e reconhecimento pela competência e qualidades técnicas.

Permitam-me tirar duas conclusões: a primeira, a astuta destreza do cirurgião no manejo do bisturi não é uma mais-valia na gestão de saúde. Saber ouvir os outros e cultivar o sentido de mérito sê-lo-ão ainda mais; segunda, dar todo o poder a um presidente de governo, a um partido maioritário, a uma qualquer administração, sem que haja transparência, escrutínio e diálogo, é o erro que os madeirenses não podem repetir. Para bem da nossa saúde!

Mário Pereira