“Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade."

Almada Negreiros

2014 marcou o advento de um género invulgar de crónica no Diário de Notícias da Madeira – a crónica elogiosa, conhecida nos meios mais académicos (e aborrecidos) por panegírico.

E ficou-se a saber que, dentro do PSD-Madeira, havia pessoas com valor. Descobriu-se que havia gente com as ideias organizadas, disposta a dar a cara e a participar. Desvendaram-se vontades divergentes da vontade oficial. Descortinaram-se velhas amizades e regressos, novas amizades e progressos.

Mas também houve propaganda. Actos de contrição, contracção e contorcionismo. Comédia, drama, tragédia, traição (“também tu Brutus?”, ou, como se diz em madeirense, “olha-me este!”).

Houve laudas compridas, onde adjectivos se sucediam com fanático zelo.

E, por entre a balada da “independência, humildade, competência, dedicação, solidariedade, elevação”, seria impossível saber de quem falava o escriba, não viesse o nome do candidato no texto.

Até certo ponto, esta devoção é normal. Mas, por entre os excessos de linguagem e de campanha, perdem-se ideias importantes.

Num partido político, não há independentes. A independência vende como figura de estilo, figura de discurso, ou ideal romântico, mas não se concretiza na prática.

Somos poucos, cada vez menos madeirenses. Temos famílias, amigos, afinidades, relações de negócios e trabalho. Fomos governados pelo mesmo partido e pela mesma liderança durante quase quatro décadas. Quem está em condições de concorrer a seja o que for é, por isso, e por natureza, “um dependente” – como Fernando Pessoa dizia de todos os chefes.

2015 não vai ser o ano da mudança definitiva, da obliteração e saneamento de todos os vícios e achaques da coisa pública e público-privada. Não vai ser o ano de regresso ao privilégio orçamental da região ultraperiférica portuguesa e europeia. Não vai ser o ano, enfim, em que o Trrim trrim fecha as portas por falta de assunto.

Há as ligações e contingências de ser ilhéu, há eleições, há a dureza da vida e do tempo – essas sim, independentes de pessoas e resultados.

Não quero, por isso, líderes iluminados ou príncipes perfeitos. Não quero motins nem dream teams. Não quero abstracções, marchas de glória, desfiles de qualidades pessoais. Quero resultados. Quero uma linha marítima para o continente. Quero passagens de avião mais baratas para madeirenses. Quero uma estratégia clara e pública para o Centro Internacional de Negócios da Madeira. Quero saber a pertinência do financiamento de um jornal por dinheiros públicos. Quero poder discutir estas coisas com o mínimo de abertura e lealdade cívica. Como toda a gente na minha geração que vive e trabalha fora – serão uma maioria? – quero o óbvio, na medida do possível.

Nessa altura, então, escrevo o meu panegírico. Gostava muito.

Pedro Fontes