As relações entre os Estados Unidos e Cuba, interrompidas há já mais de cinquenta anos, estão agora em vias de reatamento. Já ocorreram gestos públicos de boa vontade de parte a parte, já foram dados passos num sentido que ainda há poucos meses era, mesmo no mais favorável dos cenários, inimaginável, sendo certo, todavia, que ainda subsistem desencontros.

Na verdade, não se trata de um reatamento que possa ser restabelecido sem dor pois ao longo destes mais de cinquenta anos foram muitos os desencontros desde a Baía dos Porcos á crise dos mísseis, que deixaram inevitáveis marcas e semearam dor nomeadamente entre a população cubana. E é sempre difícil passar por cima de feridas com mais de meio século perante uma opinião pública dividida, já que do lado dos norte-americanos são muitos aqueles que se pronunciam contra o fim do embargo.

Conforme seria expectável, contudo, não existe unanimidade de posições. O próprio Presidente Obama, cujo Governo deu os primeiros passos no sentido da por muita desejada reaproximação, já manifestou algum desencanto perante o estado das coisas ao reconhecer que estes mais de cinquenta anos não trouxeram, para qualquer das partes, o ganho de causa que seria suposto que trouxesse.

No que a Cuba se refere a situação é ainda mais nítida, tendo-se acentuado as desigualdades e as assimetrias. O que legitima a convicção de que se o embargo tivesse sido levantado há mais tempo muito sofrimento teria sido poupado ao povo cubano, e muito provavelmente os seus índices de desenvolvimento seriam agora mais aproximados de países que se posicionam na sua área de influência. O drama dos “balseros”, a evocar o genocídio de quantos cidadãos da Alemanha de Leste que tiveram o arrojo de tentar saltar o muro do Berlim em busca da liberdade, permanece vivo na memória de todos.

Agora já não restam dúvidas de que estes anos que o embargo tem de duração foram anos perdidos. No que aos Estados Unidos respeita e não obstante o apoio sempre recebido por parte da resistência anti-castrista, não conseguiram vergar o regime de Fidel não obstante a desproporção de forças e de meios existentes. No que a Cuba se refere limitou-se a resistir com heroicidade, mas pagando um preço pesado, o preço do desenvolvimento que até hoje nunca chegou!

Não obstante todas as contrariedades e os muitos agravos, há que reconhecer que estes anos constituíram um tempo de exaltação que fabricou heróis e mitos como Ernesto Che Guevara cuja aura atravessou todo o século vinte. Foi um tempo propício ao surgimento de tais heroísmos a que não foi alheia a lenda surgida em torno dos que tiveram a coragem de, chegados a uma ilha que á época constituía pouco mais do que um imenso bordel americano por onde a Máfia estendia os seus tentáculos, expulsar o ditador Fulgêncio Baptista, que se foi asilar no Funchal, onde esteve cerca de um ano aboletado no Hotel Ritz.

Sem exagero, poderá dizer-se que uma parte da história do século vinte americana passou por esses anos, onde emergem vultos como Gabriel Garcia Marques, o autor de “Cem Anos de Solidão”, que á época em que Fidel e seus companheiros acabavam de chegar á ilha Natal era um recém-chegado em Havana onde seria correspondente de Imprensa estrangeira, e onde já se encontrava Hemingway, que viria a adoptar Havana como sua segunda casa.

Com tudo o que isto envolve de indemonstrável, acredita-se que o mito John Kennedy não teria assumido os contornos que assumiu sem Cuba, sem Fidel e sem o embargo, peças de essencial relevância na história nunca clarificada do destino americano deste século vinte. Destino que armou uma cilada ao seu personagem central que seria o próprio Kennedy.

Na hora de fazer o balanço da História, o que ressalta com maior nitidez, para além de todas as exaltações, é o tempo perdido que se converte neste momento de acerto de contas em espaço que a nenhuma das partes aproveitou. Tal como Obama reconheceu com inquestionável coragem e lucidez!

Carlos Sequeira