O possível início do fim do embargo Norte Americano a Cuba constitui um dos mais importantes acontecimentos da atualidade internacional e fica definitivamente marcado pela intervenção mediadora não só do governo canadiano mas também, e particularmente, do Papa Francisco que continua a demonstrar particular abertura e sensibilidade para as grandes questões que preocupam a humanidade e a tentar, depois de um período algo conturbado, aproximar a Igreja Católica da comunidade, rompendo mesmo, em determinadas circunstâncias, com alguns padrões cristãos que se encontravam absolutamente esgotados e ultrapassados. A verdade é que, depois daquela importante intervenção, existem razões suficientemente consistentes para acreditar num acordo histórico mais abrangente entre o governo norte americano e o governo cubano, num entendimento que irá além das recentes conversações para a libertação de um cidadão norte americano acusado de espionagem e que aproximará uma sociedade de consumo puro, no auge do desenvolvimento, de uma sociedade com grandes carências onde muitos dos bens essenciais são escassos. Sem querer entrar em qualquer tipo de análise política ou ideológica, ou até mesmo numa análise sociológica mais profunda, não posso deixar de referir que aquela notícia trouxe-me à memória a forma como aquele povo cubano, apesar de todas as limitações e restrições, consegue ser genuinamente feliz e viver com uma intensidade tal que, em determinados momentos, parece evidenciar a verdadeira essência do hedonismo. Pode parecer difícil encontrar razões para aquela felicidade intensa num país que mantém o regime político que todos conhecemos, mas a verdade é que se sente essa felicidade. Talvez porque aquelas pessoas valorizam tão intensamente as pequenas coisas que tanta dificuldade têm em alcançar. Impressiona a gratidão com que recebem um simples lápis ou um simples sabonete. É um momento de intensidade plena numa rotina de sobrevivência. Naturalmente que lamento que aquele povo tenha tantas limitações e restrições, principalmente nos bens essenciais, e foi por isso que recebi a notícia da aproximação aos Estados Unidos com grande esperança, confiando que aquele povo saiba, numa sociedade mais justa e equilibrada, preservar aquela intensidade de vivência e valorização das coisas simples. E é precisamente essa intensidade que nos impõe uma importante reflexão numa sociedade tão marcadamente consumista. Para além de todas as compras, para além de todas as prendas, para além de todas as luzes, é importante que saibamos abrandar o ritmo alucinante em que vivemos diariamente e que nos possamos concentrar na verdadeira e mais pura essência desta quadra natalícia, na intensidade das coisas simples, dos gestos, dos afectos, do convívio. Deixemos que a sociedade e a vida profissional nos devolvam intensamente à família de quem, para protegê-la, estamos, em muitos momentos, fisicamente afastados. Mas é também importante que tenhamos um tempo para os outros. Para aqueles que, mesmo não sendo nossos familiares, precisam também da nossa atenção, do nosso carinho, do nosso afecto. São tantas as crianças que estão próximo de nós e tão severamente privadas das coisas mais simples. Que este seja simplesmente um Natal intenso em família mas que seja também um Natal de partilha e solidariedade. Feliz Natal!...

Brício Araújo