Na época natalícia, a palavra Paz é uma das mais proferidas para as habituais saudações que se trocam e registam. Utilizada de forma mais banal ou mais sentida, a verdade é que quando a pronunciamos nem sempre estamos cientes da sua profundidade e dos seus significados. Sendo certo que a paz não é apenas a ausência de guerra, em zonas do globo onde o conflito armado e a insegurança fazem parte do quotidiano, o conceito de PAZ tem outra intensidade. Deste lado do mundo, há determinadas condições que temos por garantidas o que nos faz, por vezes, distrair do contexto mais global. Aproveito por isso para evocar as figuras que este ano foram escolhidas pelo Comité do Prémio Nobel para receber o Prémio Nobel da Paz. Kailash Satyarthi e Malala Yousafzay foram galardoados, um pela luta contra a escravatura de crianças e jovens na Índia e outra pelo direito de todas as crianças à educação. Nos países mais pobres, 60% da população atual tem menos de 25 anos de idade. É um pré-requisito para que haja um desenvolvimento global pacífico, que os direitos das crianças e dos jovens sejam respeitados. Em zonas afetadas por conflitos, em particular, o abuso de crianças leva à contínua e reiterada violência, perpetuando-se de geração em geração. Malala congrega, pois, dois dos valores essenciais e mais reconhecidos pela humanidade: a Educação e a Paz. Ou seja, para Malala a Educação é um meio para alcançar a Paz, ou não estivesse ela própria envolvida na luta contra a mentalidade que perpassa no seu país, onde a repressão e as ações violentas dos talibans contra escolas no Paquistão têm privado milhares de crianças de educação e consequentemente impedido que o padrão de violência e conflito se altere. Aliás, esses ataques têm subjacente o reconhecimento de que a Educação é perniciosa, no sentido de ser um fator determinante para a mudança e de potenciar o acesso a outros direitos fundamentais. Não é pois de estranhar que, no seu discurso de entrega do prémio, Malala afirme que a Educação é uma das bençãos na vida e uma das suas necessidades. Apesar de sua juventude, Malala Yousafzay já lutou durante alguns anos pelo direito das meninas à educação e tem mostrado, pelo exemplo, que as crianças e jovens também podem contribuir para melhorar a sua própria situação. Quando ela, com apenas 15 anos, foi baleada, quase 1 milhão de pessoas pediram ao governo paquistanês para realizar o seu sonho em prol da educação para todos, o que levou o governo a anunciar um programa de bolsas de estudo para 3 milhões de crianças. Entretanto, 5,5 milhões de crianças ainda estão fora das escolas no Paquistão e mais de 58 milhões não estudam em todo o mundo. Infelizmente, o que para uns é um direito garantido e reconhecido, para milhões de crianças a realidade é crua e dura. A luta de alguns homens e mulheres de grande coragem faz a diferença e aqui fica, em véspera do dia de Natal, o registo do reconhecimento por todos os que se envolvem ativamente para tornar o mundo um lugar de PAZ.
Sofia Canha