Véspera de Natal. Com 6 anos de idade, acompanhado do meu pai com uma galinha debaixo do braço, percorri a pé e descalço a distância que separa o sitio da Fajã da Areia, onde morava, até á vila de S. Vicente. Eu, o afilhado, como era hábito nas gentes pobres, fui levar ao padrinho o presente de Natal. O homem, dono de uma mercearia com o seu nome Manuel Diniz, corpo franzino, tíssico quase esquelético, óculos de aros pretos enormes e lentes grossas que permitiam apenas ver o inicio do crâneo e a ponta do nariz, lá estava atrás do balcão afanosamente a encher copos de vinho seco , o único néctar festivo disponível ao bolso dos humildes clientes. Para além dos “dotes” físicos e comerciais era conhecido por uma “alcunha” brejeira pelo facto de ser cantor em cerimónias litúrgicas mais solenes, as chamadas missas cantadas, um coro superiormente dirigido pelo organista o Sr Ernesto. Entregue o galinácio, recompensado de imediato com um copo ao compadre ( meu pai), o vendeiro saiu do balcão. Sacou de um molho de chaves, preso na rigeira que segurava as calças, pequeninas tantas quantas as inúmeras portas envidraçadas aos quadradinhos dos armários castanhas que cobriam as paredes do interior. Chamou-me. “Vem cá rapaz vou te dar uma gaita”. Meus olhos brilharam com intensidade tal que deu mais transparência ás vitrines. Expostas na montra lá estavam meia dúzia de gaitas de beiços, de plástico de cores berrantes. Abriu a porta e quando estendia as mãos para receber a prenda, que nunca tive, olhou para mim, fechou a porta e disse-me. “Amanhã irão chegar coisa mais bonitas. Amanhã te darei o presente”. E lá fui, com uma tristeza inconsolável, atravessando de volta a ponte do calhau ancorada no meio pelo rochedo que alberga no seu âmago o horago da paróquia da vila, e ainda hoje o símbolo do Município, São Vicente. O Presente? Não o recebi e nunca esqueci. Nessa noite o Menino Jesus não desceu pela chaminé e eu também não tinha sapato para colocar na lareira. Hoje, olhando e vivendo a alegria e a felicidade com que os meus netos se deliciam e se entregam sem regras a “destruir” o papel bem colorido que envolve expectativas de presentes desejados e pedidos em sonhos na noite de Natal, tento segurar uma lágrima que teimosamente me faz recuar á mercearia do Manuel Diniz na véspera de Natal de 1959.
Francisco Costa Técnico de arbitragem