O ser humano e todas as suas criações têm, entre outras, a particularidade de se renovar, de encontrar momentos de se lançar, de novo, em novos desafios. Ao longo da sua história, enquanto espécie, o Homem não se limitou a manter capacidades que lhe permitiam sustentar a sua existência. O conhecimento e a cultura, esta entendida como a forma de manter e transmitir as aprendizagens, foram os instrumentos determinantes do sucesso do animal humano sobre as demais espécies com quem coexistiu e evoluiu ao longo da sua história. Chegou contudo o momento em que dominar e ter consciência desse domínio não chega para assegurar o futuro. O conhecimento e consciência de si e da realidade ambiental conduziu ao reconhecimento, finalmente, de que há limites, definidos, por hora, pelo espaço e condições do lugar onde a história do homem se passa, o planeta Terra. Não existem recursos naturais suficientes para suportar o modelo de desenvolvimento que nos trouxe até aqui, particularmente, nos dois últimos séculos. E não se trata apenas de considerar a impossibilidade de justiça e equidade perante os desequilíbrios entre os países desenvolvidos e os restantes, o que seria já bastante para se pensar em alterar o modo de estar e fazer. Durante algum tempo a ideia da sustentabilidade, suportada no equilíbrio, ou consideração das dimensões ambiental e social, integrando-as no centro de gravidade do desenvolvimento, a economia, chegou a fazer crer que seria possível um caminho mais justo e seguro. A noção de desenvolvimento sustentável, enquanto utopia útil, serviu para motivar a atenção que é necessário dar a aspectos fundamentais como a justiça social, a eficiência na gestão dos recursos naturais ou a necessidade de recuperar a degradação ambiental, ela mesma, geradora da degradação social e da pobreza em grande parte do globo. Esse tempo trouxe resultados interessantes e melhorias significativas mas também escondeu uma parte da realidade, aliás a mais importante, e que é a constatação de que os desafios e ameaças do desenvolvimento não se destinam apenas aos países em vias de desenvolvimento. A insustentabilidade do momento actual da viagem da humanidade é global e não distingue povos mais ou menos desenvolvidos. Toca a todos, sendo a diferença apenas o momento, o tempo em que uns ou outros serão atingidos em definitivo. Daí que o novo paradigma relativamente aos desafios do desenvolvimento reconheça que todos, países em desenvolvimento e países desenvolvidos, devam definir objectivos e indicadores de desenvolvimento. A pobreza, a fome e muitas outras formas de exclusão deixaram de de ser apenas problemas de África ou da Ásia. O declínio da civilização humana face à degradação e depleção das condições ambientais do planeta sugere a imperiosa necessidade de, e em primeiro lugar, reverter questões essenciais da própria humanidade. A crise demográfica, pelo crescimento desmesurado e desequilíbrio geracional, que resulta na degradação do capital social e nas perdas económicas são questões essenciais a integrar na definição dos objectivos do desenvolvimento.

António Domingos Abreu