O prezado leitor consegue imaginar Gautama Siddhartha, Platão, ou Jesus de Nazaré, a venderem os seus ensinamentos no Mercado, trocando-os por numerário, àqueles que podem pagar? Por outro lado, concebe o estimado leitor um qualquer contemporâneo e popular autor de ‘best sellers’ de «auto-ajuda» a proferir, ou escrever, que «é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino do Céu»? E o que, face a isso, diriam as suas afluentes clientelas em Beverly Hills?... Não é por acaso que a Alta Espiritualidade (transmitida através de variadas tradições místicas e filosóficas, sólidas e milenares, em torno do globo) nunca procurou se vulgarizar ao nível das massas; e dos seus critérios necessariamente simplificadores e coisificantes, e, sempre, nos precaveu em relação a todos os milagreiros pregadores de feira e vendedores de banha de cobra. De facto, o que têm as ávidas procuras de ‘Sucesso’ material e social em comum com uma verdadeira, íntegra e elevada busca espiritual? No entanto, e infelizmente, não é outro o objectivo com que muitos dos pós-modernos vendilhões do templo nos acenam. Revelando-nos «segredos» (‘trade mark’) e afins para mais facilmente e rapidamente atingirmos as gaiolas douradas da matéria; as superficialidades ‘burguesas’, o ‘Sucesso’ que as multidões valorizam hoje acima de tudo. O filósofo, e grande espiritualista, René Guenon, nos alvores do século XX, avisou-nos acerca da gritante falta de substância dos pseudo-espiritualismos novos e não enraizados em verdadeiras tradições místicas e iniciáticas, sérias e vetustas. Que, em vez de elevar o espírito humano em direcção ao Reino da Qualidade e das Ideias, o atola nas falsas e efémeras cintilações do Reino da Quantidade e da Mediocridade. Efectivamente, não há nada tão ‘Old Age’ quanto a verdadeira Espiritualidade. Celebremo-la. Como a velha luz das estrelas ela é grátis, sem ‘trade mark’.

Miguel Santos ‘Espaço às Artes - Cultura Ponto Zero’