Natal é tempo de paz e de alegria. É sinónimo de família, da busca das nossas raízes. É a época das luzinhas (sem ironia...), do cheiro a pinheiro, da azáfama nas lojas, da compra das prendas. É também um tempo de balanço do ano que está a terminar. De recordar o que de bom e de mau aconteceu. Mas é também, e acima de tudo, um momento de esperança, de renovação, de encontro. O ano de 2014 não foi simpático para uma grande fatia da população. O país continuou (e continuará, infelizmente) a pagar com “língua de palmo” a deriva financeira suscitada por uma conjuntura internacional desfavorável e por um conjunto de medidas políticas inconsequente e irresponsável dos nossos governantes. A carga fiscal subiu a níveis quase insuportáveis, o desemprego manteve-se num patamar elevado, o setor da educação viveu na maior bagunça imaginável e na saúde, os cidadãos continuam a desesperar em muitos serviços e valências. Neste país cada vez mais desigual, fomos bombardeados diariamente com situações chocantes de violência doméstica, que culminaram, em muitos casos, na morte de mulheres, cujo número aumentou significativamente face a 2013, e observámos um “boom” de novos casos de pobreza. Para compor o ramalhete, assistimos à derrocada criminosa do maior grupo financeiro português e à prisão de um ex-primeiro-ministro, suspeito de atos de corrupção e de fraude fiscal. Coisa pouca... Todos nós somos, em parte, responsáveis por este estado de coisas. O problema não reside apenas nos outros. Convençamo-nos disso para podermos inverter e prever este género de “catástrofes”, lutando contra uma indiferença social endémica e generalizada. 2014 está a ser um ano surpreendente, que marcará o fim de um tempo também na Madeira. Um tempo político protagonizado por uma só pessoa, no bom (e houve muita coisa boa) e no mau sentido. Apesar da degradação evidente do fim do regime, do folclore inusitado, dos golpes baixos infligidos aos que lhe querem agora suceder, estamos, inevitavelmente, a chegar ao termo de uma “era” que marcou diversas gerações de madeirenses. Este é um momento histórico. O tempo de amanhã, esse, será de novas escolhas, de novas caras. Neste momento de “sede vacante” e inspirados pela época natalícia, concedamos ao ainda inquilino da Quinta Vigia a dignidade que o cargo impõe até ao final do seu mandado. Depois e como diz o povo “ano novo, vida nova”. Janeiro deve marcar o fim deste governo. Terão de haver eleições antecipadas, que clarifiquem e renovem a legitimidade democrática das nossas instituições. Se o Presidente da República assim não o entender, que sejam os deputados à Assembleia Legislativa a avançar com uma moção de censura que provoque a queda do atual Executivo. De seguida, os madeirenses serão chamados a escolher responsavelmente o projeto e os novos protagonistas políticos que os vão governar, abrindo um novo ciclo da história insular. E, aqui chegados, uma vez mais afirmo: tudo está em aberto. Se os senhores da oposição conseguirem ver um pouco mais para além do seu próprio umbigo, o novo líder do PSD/M não terá tarefa fácil nas urnas. A vitória, como se tem feito crer, não lhe está assegurada. Enquanto isso não acontece, vivamos a Festa que é, na nossa terra, tão sentida e celebrada. Que encarne uma oportunidade para invertermos a crise de valores que abrange muitas áreas da nossa vida e da própria sociedade, que nos incuta a importância do primado humano e que combata a mancha de pessimismo que paira sobre muitos de nós. Para além de tudo o que é material e está infalivelmente associado à quadra, não esqueçamos o elementar, tão bem exemplificado pelo nosso conterrâneo José Tolentino Mendonça, na sua penúltima crónica do Expresso, à qual não resisto a partilhar um parágrafo: “Seria triste constatar que a mesa do Natal foi afinal uma oportunidade perdida, porque a abundância dos alimentos acabou por agravar a fome do afeto”. Feliz Natal, com muita alegria.

Roberto Ferreira