Ruben França É dos compêndios dos manuais de política e de história que quando se verificam épocas de crise económica e social, o sentimento geral de desconfiança dos cidadãos relativamente à sua classe política, sustentada nos partidos tradicionais do sistema, aumentam significativa e preocupantemente. A relação fiduciária eleito-eleitor, característica dos sistemas representativos democráticos é posta seriamente em causa, sendo o seu reflexo mais visível as altas taxas de abstenção e simultaneamente a quebra percentual significativa dos partidos do dito “arco da governação”, sustentada na deslocação do voto em duas opções: ou nos partidos de protesto ou simplesmente no não voto (abstenção). Esta última opção constitui um fenómeno preocupante de letargia das massas, que face a esta sua predisposição encontra-se mais susceptível de enveredar por lógicas alternativas de poder de base autoritária. É bom não ignorar o alerta. Perante esta realidade é imperioso que os agentes políticos procedam a uma necessária moralização da actividade política, sob pena do fosso entre eleitos e eleitores alargar-se, o que em última instância colocaria em causa a própria sobrevivência deste modelo de democracia representativa. Uma das formas de moralizar a política, e tendo por base os sacrifícios impostos a todos os portugueses, prende-se precisamente com a necessidade de se “cortar” no número dos deputados a eleger ao parlamento regional (o mesmo debate é válido para o parlamento nacional). Esta possibilidade constitui um dos caminhos a seguir. Outra proposta, a meu ver seria fazer depender o número de representantes a eleger em função da taxa efectiva de participação eleitoral, como propõe Manuel Monteiro na sua tese de doutoramento “Do Recenseamento Eleitoral em Portugal”. Trata-se de uma solução mais drástica, mas para grandes males grandes remédios, e esta proposta obrigaria, seriamente, a classe política a repensar o “modus operandi” da sua actuação, obrigando-a a tornar-se mais transparente e próxima dos cidadãos sob pena de perder a confiança dos eleitores “in limine”. A proposta de redução do número de deputados ao parlamento regional apresentada por um dos candidatos à liderança do PSD-Madeira, Dr. Manuel António Correia, enquadra-se a meu ver nessa preocupação de moralizar a actividade política, numa altura em que se impõe sacrifícios a todos. Logo a classe política não deve constituir excepção. Obviamente que esta última opção, como todas as outras, obrigaria a séria reflexão mas pelo menos teria desde já o mérito de sujeitar a discussão uma das “vacas sagradas” do “status quo” do regime decadente, ou seja do estado a que isto chegou.