“Os valores são o eixo da roda. A roda anda, passa por mudanças, e o eixo acompanha a roda, mas não anda.» - Adriano Moreira Foi com esta citação que abri a minha intervenção no XIV Congresso Regional do CDS/PP-Madeira. Foi com esta citação que o Presidente da Mesa do Congresso encerrou os trabalhos. As traves-mestras da moção que apresentei foram os Princípios e Valores, a Meritocracia e a Transparência. Assiste-se à desagregação das estruturas nucleares da sociedade, quebram-se os elos de solidariedade inter-geracional, governa-se em nome da Estatística, tratando pessoas como números. Perante esta tormenta, os cidadãos reagem com alheamento ou rejeição. Nunca os partidos políticos mereceram tanto descrédito, nunca a classe política foi olhada com semelhante grau de desconfiança. Para reconstruir a relação com os cidadãos, propus o regresso às bases da matriz ideológica do CDS: o humanismo personalista, promovendo os princípios supremos da centralidade e da dignidade da pessoa humana; a doutrina e a ética social cristãs, alicerçadas no primado absoluto do bem comum, na solidariedade e na subsidiariedade. Clamei por: militantes considerados e acarinhados – e não militantes descartáveis, usados em período de campanha e ignorados logo depois; militantes que constituam massa crítica, com mérito pessoal, associativo e profissional – e não militantes escolhidos pela mão de membros duma suposta “casta”, na pior tradição venal e nepotista; militantes de mérito reconhecido, cujo trabalho, empenho e inteligência sejam garantias de uma efectiva progressão social – e não militantes que ostentem pouco mais que um sobrenome sonante, indiciador da pertença a uma qualquer pseudo-elite; militantes que defendam e pratiquem a política como um labor genuíno e transitório, de abnegação em prol do bem comum – sem pretensões de perpetuação nos cargos cimeiros que venham a ocupar, nem à procura de benefícios materiais ou sócio-simbólicos; militantes únicos e irrepetíveis, mulheres e homens de causas e de acção, de razão e de emoção – não seres amorfos e calculistas, carreiristas e bajuladores. Outra das críticas recorrentes aos partidos políticos é a opacidade da sua vida interna, pelo que propus a disponibilização online de contas anuais, relação patrimonial e discriminação dos gastos de campanhas eleitorais, entre outras medidas. Transparência extensível à elaboração de listas para qualquer eleição, através da subscrição pelos candidatos duma Carta de Princípios, comprometendo-se com questões essenciais, como sejam a não acumulação de pensões com salários decorrentes do desempenho de cargos políticos, sem contemplações nem excepções. Finalmente, defendi que, mais importante do que enumerar propostas e inundar as redes sociais com “soundbites” (no fundo, o que todos os outros fazem) seria fundamental mostrar aos eleitores que o CDS é, antes de mais e acima de tudo, um partido de pessoas, de princípios e de causas. Esta moção foi aprovada por unanimidade, bem como todas as outras, por expressa solicitação do presidente, o que permitiu passar para o exterior um idílico reflexo de paz e unidade. Ficou por cumprir a tão proclamada unidade na diversidade: por exemplo, a intervenção mais corajosa do Congresso, da autoria de Jenny Silva, que tentou tornar realidade um Núcleo de Mulheres auto-regulado, valeu-lhe a não recondução na Comissão Política; a moção mais apaixonada por uma causa, apresentada de forma emotiva por Nuno Drummond em defesa do Norte (um genuíno projecto de vida), não lhe valeu a merecida chamada ao mesmo orgão; quanto a mim, também fui informado de que não me manteria como dirigente. Cada líder tem a sua forma de lidar com a divergência interna: JMR alardeou a inclusão mas optou pela exclusão da diferença. Que saiba agora levar a nau a bom porto, é o que lhe desejo. Eu não faria assim, mas entendo e respeito. Encaro com total naturalidade o meu regresso à militância de base, orgulho-me de praticar o desprendimento que sempre defendi, e prezo a consciência que mantenho intacta. A mensagem que deixo é para o futuro, e sei que não são poucos os destinatários – contem comigo! Aqui me têm, pronto para todas as batalhas que for chamado a travar, da única maneira que o sei fazer – de peito aberto e de corpo inteiro. A roda anda, mas o eixo fica…

Raul Ribeiro