Porque o Natal nos traz o que de mais autêntico e feliz existe em nós, desejo sempre a sua chegada com uma expectativa quase infantil. À medida que os dias vão ficando mais curtos e se instala o friozinho que convida ao aconchego, vivo aquela estranha mistura de nostalgia e serenidade pela celebração da Festa. Virá do fundo dos tempos e estará inscrita no mais fundo do nosso inconsciente colectivo, pelo que a escolha feita pela Igreja primitiva para a calendarização do nascimento do Messias foi inspirada e, por isso, tão bem sucedida porque há, sem dúvida, uma feliz harmonia entre o compasso do tempo da Natureza e a extraordinária e transformadora mensagem cristã. Mas o Natal é também paradoxo e raiva quando saltam à estrada os fariseus que se aproveitam para colorir de dourado os crimes hediondos que praticam o ano inteiro: é o negócio imoral da caridadezinha a favor dos seus fabulosos lucros. São “voluntários”, recrutados nos escombros do desempego, a trabalhar sem remuneração digna, sem vínculos, sem direitos, apenas por conta da sua boa vontade e ingenuidade. São arredondamentos por conta de organizações que se instalaram na máquina infame da “profissionalização” da falsa solidariedade. São peditórios, são jantares, são espectáculos para resolver aquilo que nunca devia ter acontecido ou que acontecendo teria de ter na comunidade formas de solução menos humilhantes para quem tem de pedir ajuda e, como condição imposta por uma sociedade “voyeurista” e perversa, tem de expôr a sua privacidade na praça pública. Mesmo sem querer, acabamos todos cúmplices dos vendilhões do templo já que se multiplicam, assustadoramente, os problemas sociais, num país e numa região destruídos por traidores, e é preciso agir com urgência. Para quem está resignado, o ano de 2015 será só seguir e somar do mesmo mas para quem o Natal é cumprimento da promessa de Justiça e Paz, o próximo ano terá de ser o da mudança, o da alternativa, o da fraternidade e da verdadeira solidariedade. É este último que desejo. Um Feliz Natal!
Isabel Cardoso Professora