O acesso a informação de qualidade é uma condição sine qua non para assessorar as tomadas de decisão nos dias de hoje. O que seria de nós se as previsões meteorológicas fossem baseadas em opiniões subjetivas do estado-do-tempo. O que seria de nós se as mudanças climáticas fossem o resultado da mera interpretação dos relatos históricos. O que seria de nós se os nossos políticos tomassem decisões baseadas na opinião dos amigos e dos círculos de influência mais próximos. A subjetividade e a falta de rigor que muitas vezes sustentam as decisões e políticas públicas em Portugal suscitam muita margem de erro, daí o descalabro que nos está custar milhões em juros e em dívida. Para transformarmos o nosso mar em ‘economia’ de uma forma sustentável é imperativo que recorramos a informação de qualidade. Uma vez que o oceano é um meio inóspito, a sua compreensão e conquista requer o recurso à tecnologia. Foi nesta perspetiva que o Observatório Oceânico da Madeira juntou várias instituições nacionais e internacionais, e trouxe à Região uma equipa do LSTS – Laboratório de Sistemas e Tecnologias Subaquáticas da Universidade do Porto com sistemas robóticos para testar a sua capacidade de recolha de dados de forma autónoma. Foi em 2008, quando visitei pela primeira vez este grupo liderado por João Tasso e Fernando Lobo Pereira, com quem discuti algumas das suas potenciais aplicações, e que vislumbrei executar operações na Madeira. Ficou claro, que o grupo evoluiu muito desde então, que existe ainda muita margem para progredir, mas que já estão operacionais um conjunto de valências, que podem vir a contribuir com informação de qualidade para apoiar futuras tomadas de decisão. Monitorizar a variação dos fundos marinhos em zonas navegáveis, identificar e localizar objetos perdidos no mar e/ou monitorizar variáveis ambientais são algumas das muitas aplicações que estas tecnologias nos possibilitam hoje. Enganam-se aqueles que acham que somente os países ditos ‘ricos’ têm capacidade para inovar e para ‘inventar’ novas tecnologias. Temos técnicos de qualidade internacional também em Portugal. No entanto, nem sempre os valorizamos. Nunca esqueço o comentário dos colegas Americanos do ‘WHOI-Woods Hole Oceanographic Institute’, uma espécie de MIT da Oceanografia, quando se referiram ao LSTS como ‘líderes mundiais no desenvolvimento de tecnologias robóticas subaquáticas de pequenas dimensões’. Para além de submarinos, este grupo constrói aeronaves, integrando todas as tecnologias em plataformas de troca de informação e comunicação comuns. No futuro, tudo faremos para que o ´laboratório natural’ que nos proporciona o mar da Madeira, acessível na maior parte dos meses do ano, possa (continuar a) ser o palco de operações destas tecnologias, de forma a criarmos na Região um nicho de oportunidades de aplicação e desenvolvimento destas tecnologias Portuguesas de calibre internacional. Para além de sermos conhecidos pela qualidade dos serviços turísticos que proporcionamos, poderíamos ser conhecidos também pelos sistema de monitorização autónomos, que estas tecnologias proporcionam, nomeadamente no que concerne à monitorização da qualidade das águas balneares, à monitorização do transporte de poluentes junto à costa, à monitorização de cardumes, das pradarias de plantas subaquáticas e de outras espécies marinhas. Atendendo a que seria algo inovador e com impacto internacional, porque não potenciar esta oportunidade? * Investigador e Docente Universitário Diretor do OOM-Observatório Oceânico da Madeira
Rui Caldeira *