Meu amor, passei muito tempo sozinha no jardim. Observo-te a vires na minha direcção. Posso ouvir os teus passos. Posso ver-te agachando-te para evitares os arranhões dos ramos. Trazes vestida uma camisola azul e branca e calças de ganga. Eu trago uma camisola preta, e calças de ganga, também. Estás diante de mim. Encosto a minha testa ao teu peito. Respiras no meu cabelo.

É uma história, como as outras. Uma história contada com pedras enterradas. Escavamos o jardim da família e encontramos as pedras, as tais. Seguro-as nas mãos, espalmadas, e uso as palavras que ela nunca me ensinou. « Aqui viveu um antigo palhaço da Babilónia, aqui viveu uma princesa fenícia, aqui viveu um debulhador de trigo, e um fabricante de sabão, um mestre tintureiro cujos dedos eram todos de cores diferentes. » Conheço estas palavras não porque a minha avó mas tenha ensinado, porque não o fez. Conheço-as porque eu vivi naquela casa. Estive lá muito depois de as pedras terem surgido à superfície, ocultando os seus encantos e horrores da luz do dia. Escavamos bem fundo. Estamos ajoelhados. Viro-me para ti e pego nas tuas mãos e digo: « Aqui viveram mil gerações de fruta e de amor e de poeira de família ». Pego na pedra e não digo nada. Quando volto a falar, sei que deixei o reino das pedras e caí ou talvez me tenha erguido ao reino onde as histórias não são feitas de pedra mas de ar e narrar é respirar. Respiro ofegante. Digo : « Esta pedra entregou-me uma vez nas mãos do homem que trabalhou neste jardim ». Digo : « Brotou da terra e entregou-se a ele como um presente ». Pegas nas minhas mãos. A pedra cai com estrondo no chão. Olhamos à nossa volta, pressentindo que estamos longe de estar sós e ambos sabemos por que estamos aqui. Por que regressei e continuo a regressar a este pequeno pedaço de terra - este jardim : a nossa biblioteca. Sabemos que a minha fala é, na verdade, uma leitura e que juntos, apertamos os nossos corpos, recuando nas páginas do livro que aqui cresce, do solo deste jardim. Caminhamos para a árvore dupla. Quando nos aproximamos, temos de nos agachar para evitarmos ser arranhados pelos seus ramos. És tão alto que tens de te baixar muito mais do que eu. Isso faz-nos sorrir. Quando alcançámos os troncos gémeos, puseste as mãos entre eles - no grosso V onde se fundem. Continuas agachado, eu consigo pôr-me de pé, quase direita. O fruto ainda não está maduro e nós estamos rodeados, de todos os lados, por tantas laranjas pequenas verdes-escuras das duas variedades. Este sítio é tão belo e tem uma fragrância suculentamente espessa. A quietude do jardim é um quietude de sussurros, uma quietude de ramos a roçar outros ramos, uma quietude pontuada pela ocasional peça de fruta verde a cair com um breve impacto sobre o chão. Digo-te que a palavra história deriva da raiz grega « istor », que significa « conhecimento » ou « conhecer ». Depois digo-te que a minha história não é verdadeira até à sua raiz, porque eu não sei nada. Tu estendes os braços e eu vou ao teu encontro. Sigo-te, baixando-me de novo para emergir dos galhos. Vou direita aos teus braços e ficamos juntos no meio do jardim. Sussurras: «Não me contes a tua história, mas conta-me a história da história. Conta-me a raiz mentirosa»

Pergunto: «Como distingues uma raiz mentirosa quando és um dos ramos vivos ?» Ficamos calados durante um período que parece tão longo. Então, digo-te que sei de facto alguma coisa. Digo: « Sei muitas histórias ». Tu sorris. Eu continuo a falar. Digo: «Sei tantas histórias acerca deles. Conheço a história dos gémeos, da árvore dupla, do meu avô que atravessou as areias do Líbano, sei a história proibida do amor dos nossos pais.» Estou afogueada e estou a falar em voz alta, agitando as mãos para ti e para as árvores. Dizes : « Conta-me todas as histórias. Conta-me a nossa história.»

Abraçamo-nos junto à velha árvore. Imagino, que parte das nossas vidas é a ficção, actualmente - a parte que, simplesmente, esqueceremos ou que nos recusaremos a lembrar ? Serão os meus braços que se engancharão atrás do teu pescoço, dos teus ombros? Ou serão os teus olhos que procuram no céu, captando agora um relance de uma ave muito grande sobrevoando o jardim em direcção à água? Imagino que parte das nossas vidas é a realidade? Que parte irão os nossos filhos, ou os filhos dos nossos filhos, terão de inventar ao tentarem descobrir quem fomos e não fomos ? Terão de inventar a maneira como estás a olhar para mim agora, com a cabeça ligeiramente inclinada para a direita, os olhos azuis e penetrantes, os teus lábios macios abertos e virados para cima ? Terão de inventar a forma como pressionas os lábios sobre o alto da minha cabeça, beijando-me em código? Terão de inventar a nossa postura, a nossa história, a nossa paixão, os nossos corpos plantados neste lugar, abraçados ao vento do princípio da noite? Terão de inventar as histórias sobre as quais assentamos? Enterro os dedos dos pés no solo. As histórias enterradas sob os nossos pés? Ou terão de tecer redes para captar as que flutuam sobre as nossas cabeças, as histórias que narram as nossas almas montadas nas nuvens, em voo picado sobre o horizonte, como aves á solta ? A verdade serão estas palavras que agora exponho ? Ou serão as palavras ainda presas debaixo da língua - tudo o que não posso escrever, nunca segredar, nunca proferir ?

Renata Camacho