“E aqueles que foram vistos a dançar juntos, foram julgados insanos por aqueles que não podem dançar”. Friedrich Nietzche
Se analisarmos a história da Região depreendemos, com alguma facilidade, que não existiram muitos momentos de democracia participativa. A revolução - ou as revoluções - nas notícias, chegaram sempre, pelo menos, 24 horas atrasadas.
Quando saíamos à rua para celebrar ou para discutir, já o resto do país acordava ressacado.
A questão é simbólica, mas é ilustrativa para o facto, também ele óbvio e que por isso não necessita de grandes interpretações teóricas ou metafísicas, da nossa insularidade ter sido, muitas vezes, causa do nosso atraso de “24 horas”. Quando chegamos à festa, já o porteiro anda a varrer os sobreviventes da porta de entrada e assim, nem pagando 50 euros porque as luzes já acenderam e mostram quantas e quantas vezes o glamour se constrói sobre copos partidos.
Bem, seja lá como for, a verdade é que nos vamos aguentando. E, quer se queira quer não, nos últimos anos fomos recuperando tempo. Nem tudo foi perfeito, nem tudo são rosas (às vezes, a música destoa e lá se vai a dança a dois, passamos da valsa para o hip-hop com a velocidade de quem esfrega um olho), mas começámos a chegar a tempo. Melhor, em dado período, até tínhamos o cartão da casa e entravámos após um cumprimento ao porteiro.
Voltando ao tempo em que chegávamos sempre no final da festa, a verdade é que por não estarmos dentro da sala, por não sabermos bem quem saíra com quem, arranjávamos maneira de brigar entre nós, na rua. Muitas vezes, a discussão era sobre as razões do atraso e a culpa era atribuída a um, ou a outro, conforme os interesses de cada qual. Até as alianças nasciam aí, nesse terreno que, no fundo, não o era.
Resumidamente, as revoluções chegavam quando já eram crescidas nos outros lados mas nós não as deixávamos de fazer. À nossa maneira. Entre nós. Adaptando-as à nossa pequena realidade.
Curiosamente, a história repete-se e a nossa comunidade está a realizar uma pequena “Revolução à madeirense”. Percebemos que a pluralidade acaba por ser uma coisa, sei lá, natural. No século XXI. Foi giro termos chegado agora à festa.
No entanto, estamos um bocadinho, talvez... confusos (será esta a palavra?) com tanta pluralidade. A própria imprensa não sabe bem para onde se vira, dada a quantidade de coisas que aterram, de barriga, nas redações, vindas Deus sabe de onde. Vai daí, vai aproveitando a oportunidade, porque não é todos os dias que temos seis candidatos ao que quer que seja e programas... que são programas quando se tem o “diz-que-disse”?
Mas, curiosamente, também nós, que apoiamos candidatos, às vezes andamos meios... confusos. E então, utilizamos argumentos giros. Já ouvi rapaziada dizer que apoia “a” ou b””, ou “c”, ou “d”, ou por aí fora, porque o dito tem…“valores”. Pois eu parto do princípio de que todos os candidatos têm valores. Os da social-democracia. Da defesa da pessoa humana. Da defesa da autonomia, por exemplo.
Não deveríamos, assim sendo, e partindo da base que é comum aos candidatos, ir à procura daquilo que propõem como caminho para chegar melhorar aquilo que precisa ser melhorado e consolidar aquilo que está bem feito?
Sem confundir “valores” com “porreirismo” e sem colocar o nosso próprio “valor” à frente do “valor” dos restantes, ou seja, sem entendermos “valores” como atalhos. Recusando as tão típicas ambiguidades madeirenses.
Encurtando, porque isto já vai longo. Chegámos à festa. Vamos procurar uma brecha para entrar. Entrando, vamos perceber que lá dentro (bem, nem sempre, mas de vez em quando, pelo menos), discutem-se coisas de gente mais experiente nesta estranha coisa da pluralidade. Por exemplo, programas de governo. Por exemplo, capacidade para efetivamente governar (é bem diferente de mandar notícias cá para fora). Por exemplo, caminhos para sair da trapalhada em que estamos metidos.
Eu começaria por dizer que importa escolher alguém que nos una em prol de objectivos comuns. Se somos capazes de estabelecer pontes com os quatro cantos do mundo, de transformar montanhas em maravilhas da natureza, não seremos também capazes de inventar uma discussão saudável e que vá realmente ao que interessa? E o que interessa? Sé é governante ou não? Não me parece. Tampouco. Interessa é que tenha capacidade e desejo de união de todos os madeirenses, que aposte na juventude que não trabalha e que vença a oposição. Enfim, para resolver os problemas de todos os dias e dos dias que virão.
Luís Filipe Santos