Alguns daqueles que lutaram por mais autonomia e continuam preconizando sempre mais autonomia, são os mesmos que hipotecaram essa mesma autonomia.

Nunca vi exercício mais inconsequente. Com uma mão agarra-se e luta-se por mais autonomia e com a outra atiramo-la ao vento. Explico-me. Tivemos inegável sucesso na luta por mais autonomia. A cada revisão constitucional que passava, conquistávamos mais poderes. Para a maioria das Regiões Europeias, o nosso poder próprio é invejável. A dinâmica foi, acima de tudo, quantitativa.

Mas secundarizámos completamente a vertente qualitativa. Não bastava lutar por mais autonomia. Era imperioso que em simultâneo tivéssemos tido o mesmo empenho e determinação em lutar por uma melhor autonomia. Mais autonomia dependia das concessões que conseguíamos arrancar do Terreiro do Paço. Mas melhor autonomia dependia acima de tudo de nós autonomistas, da nossa capacidade de irmos aperfeiçoando e elevando a qualidade do nosso sistema de governo próprio, do nosso sistema político regional a que a autonomia que conquistávamos ia dando lugar.

Não deixa de ser paradoxal. Tivemos sucesso naquilo que dependia d’outrem. Falhámos no que dependia de nós. Acham que não? Façamos então um teste.

Formulemos a seguinte pergunta: Quantos de nós, Madeirenses e Portosantenses, nos sentimos representados no Órgão primeiro da autonomia, a Assembleia Legislativa? Ouso responder: Quase ninguém. A crise de representação na nossa Região é uma crise da ideia de autonomia política. Nos primórdios da autonomia, credibilizámo-la quando a associámos à recuperação de um atraso de séculos e a um ciclo de progresso sem precedentes. Mas não tardou muito que começássemos a dar machadadas na credibilidade e na confiança com que os cidadãos olhavam para a autonomia. O sistema partidário regional virou oligárquico. E o sistema de governo próprio a começar pela Assembleia Legislativa foi acumulando disfuncionalidades próprias quase de um circo, ou de uma “casa de loucos”.

Mas pior ainda do que estas “disfuncionalidades” é o estado de exceção que, protegido pelo Estatuto da Autonomia fomos instituindo na RAM, ao ponto de sermos o ÚNICO território no País onde o regime de incompatibilidades é o menos apertado, onde ainda é possível acumular reformas e salários, onde ainda se mantêm em formação direitos a subvenções vitalícias e onde ainda existe um “Jackpot” que é verdadeiramente escandaloso. E todo este conjunto de privilégios persiste apesar da situação de emergência social em que vivemos.

Não era suposto o Estatuto de Autonomia servir para proteger as populações em lugar de proteger a classe política?

Não nos admiremos por isso da desconfiança que gerámos na forma como o povo madeirense perceciona a autonomia. Urge recuperar esta confiança. Só o conseguiremos se para além de mais autonomia lutarmos por MELHOR autonomia. E melhor autonomia implica para além de uma nova “praxis” política uma reforma profunda do sistema político regional tal como tenho vindo repetidamente a preconizar. E acreditem não estou a dizer algo de novo. Afirmei-o pela primeira vez no congresso do PSD/M realizado em 1995.

Post Scriptum: Eu sou ingénuo mas Miguel de Sousa é o maior. Criticou-me por resumir os problemas da Madeira a um navio. Criticou-me pela vertente despesista que estaria subjacente à vinda desse navio (vide em ambas as situações o seu manifesto de candidatura). Mas num ápice abraçou a ideia ao ponto de se ter deslocado a Las Palmas e ter garantido num encontro com o armador o regresso do Armas. Bravo! Aplaudo! Sinceramente. O Reino dos Céus também é dos convertidos. Mas não seria melhor que antes tivesse desvendado o que combinou com o armador?

Pela minha parte continuarei envidando todos os esforços para concretizar essa grande aspiração dos madeirenses em conjugação com todos aqueles que quiserem remar no mesmo sentido.

Sérgio Marques Candidato a líder do PSD-M