Enquanto caloiro na Universidade do Porto em 1988, tive a oportunidade de visitar a casa-museu de Abel Salazar e conhecer o legado deste médico, investigador e pintor do neo-realismo, uma figura eminente da ciência e cultura portuguesa. Autor de, entre outros, o Ensaio sobre Psicologia Filosófica, ficou conhecido pela sua expressão “O médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe”, na qual ilustra a necessidade de cada médico (e enfermeiro) compreender as várias vertentes da existência humana para melhor lidar com o sofrimento físico e psíquico da doença, humanizando assim a relação médico-doente.

Mas o que é essa relação? Como se define? Permitam-me perambular, dizendo tratar-se da relação de confiança/responsabilidade ou informação/compreensão existente entre quem trata e quem é tratado. Uma dissecção quase impossível entre imagem e espelho, uma dualidade absoluta.

Objectivamente, o que se exige do médico? Informação, competência, tempo, decisões partilhadas, consentimento informado, confidencialidade, comportamento tranquilizador e honestidade.

Mas são bem conhecidos os casos de fraudes na saúde, em especial quando a remuneração é por acto praticado. E do doente? Exige-se verdade das afirmações, empenho no tratamento, consciencialização da doença e respeito. Mas o excesso de litigância contra médicos resultou em médicos burocraticamente defensivos, que pedem demasiados exames, que adiam as decisões, acabando por prejudicar o doente e disparando os custos da saúde, como acontece nos EUA, onde 40 milhões de americanos não conseguem aceder a cuidados de saúde, pelos altos custos dos seguros.

Para complicar esta relação, por vezes, há interferências de terceiros, sejam por limitações dos sistemas de saúde, por descréditos entre profissionais, seja pelo fatalismo ou desvalorização incutidos pelos familiares e amigos. Como médico, testemunho, os casos mais penosos ocorreram-me sim pela disfuncionalidade entre médicos ou no decurso de cuidados ministrados por seguradoras, cujos critérios são complexos e, por vezes, discutíveis. Exemplifico estas interferências com a ignóbil sugestão do Tribunal de Contas para consultas tipo “expresso”, com tempo mínimo, de forma a mais doentes serem atendidos. Certamente os médicos não devem fazer sentenças nem os juízes usar bisturis.

A tecnologia pode até ser um empecilho, pois pode esfriar e subalternizar a relação médico-doente ao descurar as condicionantes sociais e culturais. Mais, fará sentido um Serviço de Saúde dispor de equipamentos e unidades de vanguarda mas preterir o básico, deixando utentes sem diagnóstico precoce de depressão, diabetes, hipertensão ou de planeamento familiar, por falta de médicos de família?

A internet pode ser informação útil, mas ao não ser fiscalizada, é também palco de desinformação e comercialismos. Há pois muitas condicionantes nesta relação.

Uma coisa é certa, uma boa relação médico-doente é um excelente mecanismo de qualidade de qualquer hospital ou centro de saúde. Permite minimizar lacunas e carências. Infelizmente, muito do comportamento restritivo ou prepotente de uma administração, mais tarde ou mais cedo transmite-se aos utentes. As listas de espera longas, ou sem critério, minam justificadamente a confiança do doente, mas os administradores esquecem-se que cabe sempre ao médico (e enfermeiro) dar a cara pelo sistema de saúde.

A questão fundamental está na selecção e formação dos médicos (e enfermeiros). Uma relação salutar é um pilar fundamental da ética médica mas tal não é valorizado na selecção médica pois é o nível de conhecimento, traduzido em notas, que conta. A formação será sempre deficitária se, na avaliação do desempenho médico, não for valorada a humanização a par da produtividade.

Concluo, se os actuais responsáveis da saúde continuarem a deixar esta relação ao arbítrio aleatório dos diferentes médicos e doentes, então nunca conseguiremos ter cuidados de saúde de qualidade e a custos aceitáveis.

Mário Pereira