Esta igreja que exclui alimenta-se do zelo religioso excessivo dos fariseus A igreja da exclusão radica na ideia de que não pode haver espaço para homens e mulheres que estejam fora do que se convencionou contra o devir temporal. A história tem que ser apenas uma e seguir um curso linear, porque não são permitidas oscilações nem muitos menos altos nem baixos. Tudo tem que seguir o dogma, a regra que serve para toda a história, para todos os tempos. Os adeptos de uma igreja assim são cegos diante das necessidades do mundo. Nada de mudança que venha permitir incluir o que «naturalmente» não merece inclusão. Ainda mais se tais condicionalismos históricos já estão à partida marcados pelo estigma do pecado. Isaías grita perante isto: «As sentinelas de Israel estão cegas e não têm conhecimento» (Is 56, 10). O culto judaico era profundamente exclusivista, nos serviços religiosos no templo não eram permitidas determinadas pessoas. Os principais rejeitados eram os estrangeiros e os eunucos. Uns porque vinham da prática do politeísmo, característica dos povos pagãos. Os outros porque representavam a infertilidade motivada pela castração. Por sinal, há muitos herdeiros desta mentalidade dentro da Igreja Católica. Sobre tais sentinelas, diz mais o profeta Isaías: «… todas elas são como cães mudos, incapazes de latir» (Is 56, 10). A mudez faz escola na igreja que exclui. Porque estar mudo é cómodo, não compromete perante a dor gritante da marginalização que há no mundo. Antes o quentinho do poder que proporciona tantas benesses, mesmo que seja contra a fraternidade universal que o Papa Francisco tanto tem apelado para a Igreja e para o mundo inteiro. Esta igreja que exclui alimenta-se do zelo religioso excessivo dos fariseus, que excluíam as pessoas do amor e da misericórdia de Deus, que em sublime paradoxo, com Jesus, convoca para a sala do Banquete todos aqueles que não merecem e que não deviam estar lá. Esta ousadia incomoda sobremaneira. Mas como não responder ao grito das necessidades do mundo e aos ventos da história, onde estão pessoas concretas… Como adormecem tranquilos os dignatários da exclusão? – Isaías responde: «… deitam-se e sonham, só querem dormir» (Is. 56, 10). Soa-lhes mal as palavras «misericórdia», «apreciação» e «atenção», porque não estão nas regras nem muito menos naquele mundo que colocaram no cérebro pretensamente iluminado pela «divina providência» que tanto gostam de florear nos seus belos discursos à sombra do argumento da «doutrina», que de tanto badalado está a tornar-se falacioso e um bordão para quem não gosta dos ventos que sopram a vida e o mundo. Isaías volta a definir tais intentos: «São cães devoradores, insaciáveis. São pastores sem compreensão nem entendimento; todos apenas seguem o seu próprio caminho natural, cada um, busca com avidez vantagens apenas para si» (IS 56, 11-12). A frescura que os tempos exigem perante a auto-suficiência, espalha a desorientação e a confusão nas cabeças seguras do pensamento doutrinário único e imutável. Então reina o egoísmo e a mesquinhez, «cada um busca com avidez vantagens apenas para si» (Is 56, 11). Aquela coisa estranhíssima do grupo de cardeais ter ido à socapa ao Papa emérito Bento XVI pedir apoio sem sucesso para os seus propósitos conservadores no Sínodo sobre a família e o facto de ter sido notícia estes mesmos dignatários terem-se esquivado para não cumprimentarem o Papa Francisco na ocasião da celebração da beatificação de Paulo VI, revelou muito deste egoísmo e mesquinhez cega que reina ainda no Vaticano. Quando algo anda relacionado com separados, recasados, homossexuais e uniões de facto, muitos falam de pecado do seu alto e luxuoso pedestal da sua santa doutrina, mas esquecem com a maior das indiferenças o sofrimento das pessoas envolvidas, as famílias, que por causa de preconceitos e estigmas passam pela gritante marginalização. É óbvio que ninguém espera que a Igreja Católica «abençoe o pecado» (coisa que aliás deve fazer em relação ao pecador), mas tem que mudar, quanto à exclusão, que existe de verdade por todo lado na Igreja. Nisto a Igreja não é nada diferente da mentalidade da sociedade em geral. Aliás deve ser quanto a isto que a Igreja deve marcar a sua diferença, tem que viver a misericórdia, a atenção, estar com os que sofrem, deve falar denunciando, deve ouvir, deve apreciar, deve acompanhar… Tudo incondicionalmente. É esta mudança que se almeja. José Luís Rodrigues
Esta igreja que exclui alimenta-se do zelo religioso excessivo dos fariseus
A igreja da exclusão radica na ideia de que não pode haver espaço para homens e mulheres que estejam fora do que se convencionou contra o devir temporal. A história tem que ser apenas uma e seguir um curso linear, porque não são permitidas oscilações nem muitos menos altos nem baixos. Tudo tem que seguir o dogma, a regra que serve para toda a história, para todos os tempos. Os adeptos de uma igreja assim são cegos diante das necessidades do mundo. Nada de mudança que venha permitir incluir o que «naturalmente» não merece inclusão. Ainda mais se tais condicionalismos históricos já estão à partida marcados pelo estigma do pecado. Isaías grita perante isto: «As sentinelas de Israel estão cegas e não têm conhecimento» (Is 56, 10). O culto judaico era profundamente exclusivista, nos serviços religiosos no templo não eram permitidas determinadas pessoas. Os principais rejeitados eram os estrangeiros e os eunucos. Uns porque vinham da prática do politeísmo, característica dos povos pagãos. Os outros porque representavam a infertilidade motivada pela castração. Por sinal, há muitos herdeiros desta mentalidade dentro da Igreja Católica. Sobre tais sentinelas, diz mais o profeta Isaías: «… todas elas são como cães mudos, incapazes de latir» (Is 56, 10). A mudez faz escola na igreja que exclui. Porque estar mudo é cómodo, não compromete perante a dor gritante da marginalização que há no mundo. Antes o quentinho do poder que proporciona tantas benesses, mesmo que seja contra a fraternidade universal que o Papa Francisco tanto tem apelado para a Igreja e para o mundo inteiro. Esta igreja que exclui alimenta-se do zelo religioso excessivo dos fariseus, que excluíam as pessoas do amor e da misericórdia de Deus, que em sublime paradoxo, com Jesus, convoca para a sala do Banquete todos aqueles que não merecem e que não deviam estar lá. Esta ousadia incomoda sobremaneira. Mas como não responder ao grito das necessidades do mundo e aos ventos da história, onde estão pessoas concretas… Como adormecem tranquilos os dignatários da exclusão? – Isaías responde: «… deitam-se e sonham, só querem dormir» (Is. 56, 10). Soa-lhes mal as palavras «misericórdia», «apreciação» e «atenção», porque não estão nas regras nem muito menos naquele mundo que colocaram no cérebro pretensamente iluminado pela «divina providência» que tanto gostam de florear nos seus belos discursos à sombra do argumento da «doutrina», que de tanto badalado está a tornar-se falacioso e um bordão para quem não gosta dos ventos que sopram a vida e o mundo. Isaías volta a definir tais intentos: «São cães devoradores, insaciáveis. São pastores sem compreensão nem entendimento; todos apenas seguem o seu próprio caminho natural, cada um, busca com avidez vantagens apenas para si» (IS 56, 11-12). A frescura que os tempos exigem perante a auto-suficiência, espalha a desorientação e a confusão nas cabeças seguras do pensamento doutrinário único e imutável. Então reina o egoísmo e a mesquinhez, «cada um busca com avidez vantagens apenas para si» (Is 56, 11). Aquela coisa estranhíssima do grupo de cardeais ter ido à socapa ao Papa emérito Bento XVI pedir apoio sem sucesso para os seus propósitos conservadores no Sínodo sobre a família e o facto de ter sido notícia estes mesmos dignatários terem-se esquivado para não cumprimentarem o Papa Francisco na ocasião da celebração da beatificação de Paulo VI, revelou muito deste egoísmo e mesquinhez cega que reina ainda no Vaticano. Quando algo anda relacionado com separados, recasados, homossexuais e uniões de facto, muitos falam de pecado do seu alto e luxuoso pedestal da sua santa doutrina, mas esquecem com a maior das indiferenças o sofrimento das pessoas envolvidas, as famílias, que por causa de preconceitos e estigmas passam pela gritante marginalização. É óbvio que ninguém espera que a Igreja Católica «abençoe o pecado» (coisa que aliás deve fazer em relação ao pecador), mas tem que mudar, quanto à exclusão, que existe de verdade por todo lado na Igreja. Nisto a Igreja não é nada diferente da mentalidade da sociedade em geral. Aliás deve ser quanto a isto que a Igreja deve marcar a sua diferença, tem que viver a misericórdia, a atenção, estar com os que sofrem, deve falar denunciando, deve ouvir, deve apreciar, deve acompanhar… Tudo incondicionalmente. É esta mudança que se almeja.
José Luís Rodrigues