As coisas não morrem nem desaparecem. Como na lei natural, tudo se transforma Tenho uma tabuleta gravada a fogo na memória – terá sido das primeiras coisas que li, à porta de uma vivenda no centro da vila da Ponta do Sol. “Nesta casa viveram os ascendentes do eminente escritor americano John dos Passos, que visitou este concelho no dia (?) de 1960. Homenagem da Câmara Municipal”. Na altura, parecia-me uma efeméride algo ingénua. Quer dizer, aborrecia-me a celebração do acaso, bem como a frieza (a frieza diligente e estudada) daqueles “ascendentes” – nem pais, nem avós, mas meras figuras de Direito sucessório. E quem seria o tal John dos Passos? Por volta da altura em que vim para Lisboa estudar, em 2004, aquela casa transformou-se num centro cultural – Centro Cultural John dos Passos – marcando, para mim, acidentalmente ou não, o final de um tempo e de uma era. É mais difícil reparar nessas mudanças numa grande cidade. Na cidade (na metrópole?) a mudança nunca é um produto ou uma decisão, mas um processo, uma marcha, uma massa coligada de vontades anónimas, onde nada parece definitivo, e de onde presumivelmente resulta a melhoria da vida. Na cidade, tudo muda com uma energia predisposta e boa em si mesma. As coisas não morrem nem desaparecem. Como na lei natural, tudo se transforma. O antigo Estádio da Luz é o novo Estádio da Luz, os escritórios são clínica dentária, o descampado é bloco de apartamentos, o cabeleireiro é hamburgueria, o cinema é loja chinesa, a churrascaria é pastelaria. Pelo meio, há casulos de andaimes, contraplacado, “em breves” e marcas experimentais. Mas é raro haver nada, é raro o vazio, o vazio necessário para sentir o que se perdeu. Na ilha, o compasso é outro. As coisas desaparecem e aparecem com outro vagar. Aqui é claro, ou mais claro, que certas coisas morrem por si. Não é a loja chinesa que se impõe, não é a moda de comida rápida que prevalece, não é a pressão compradora que constrói. É a loja que deixa de vender, é o café que deixa de servir, é o estádio que deixa de ser utilizado, é a estrada que deixa de ser arranjada, é a casa que deixa de ser mantida. É o que existe que perece e se decompõe, por abnegação de quem está ou por ausência de quem estava. Sempre que regresso à Madeira, choco com este passado, cristalizado e idealizado, anterior a 2004. Com esta cultura de segunda metade do século XX, pós-guerra, pós-revolucionária e pós-colonial, de fé cega, onde o mero avanço do tempo leva com o carimbo do progresso. Onde a obra pública é o apanágio da justiça social – onde se constrói por construir, e quem vier depois paga contente e agradecido, porque vive mais aprovisionado e feliz, na presença da sabedoria e da grandeza. Penso em como esse mundo terminou, por mais que se lute por ele, por mais que ele tenha a sua inércia. Que o passado também cobra, também tem a sua gravidade e as suas dívidas, as suas garras de ferrugem. E penso no sentido que faz aquela placa e os seus “ascendentes”. São, de facto, figuras de Direito Sucessório. Não foi John dos Passos que herdou aquela casa, foi aquela casa que o herdou. Foi John dos Passos que voltou, para devolver à casa dos seus antepassados parte daquilo que os seus pais foram procurar à América. Foi um John mais novo que se inquietou, em Manhattan Transfer, com o fim de outra era: “O que há de terrível em Nova Iorque estagnar é que não há nenhum outro sítio para onde ir. É o topo do Mundo”. O que há de terrível no topo do Mundo estagnar é a sensação de que não há sítio para ir senão para trás, para o passado triste e trilhado. Quando não se está no topo do Mundo, resta-nos viajar no tempo viajando no espaço – resta-nos trocar as casas da nossa infância pelos Estados Unidos de cada um. Que quem parte não se esqueça, e saiba voltar, com a sua placa, à única casa que o pode herdar. Pedro Fontes, Advogado
As coisas não morrem nem desaparecem. Como na lei natural, tudo se transforma
Tenho uma tabuleta gravada a fogo na memória – terá sido das primeiras coisas que li, à porta de uma vivenda no centro da vila da Ponta do Sol. “Nesta casa viveram os ascendentes do eminente escritor americano John dos Passos, que visitou este concelho no dia (?) de 1960. Homenagem da Câmara Municipal”. Na altura, parecia-me uma efeméride algo ingénua. Quer dizer, aborrecia-me a celebração do acaso, bem como a frieza (a frieza diligente e estudada) daqueles “ascendentes” – nem pais, nem avós, mas meras figuras de Direito sucessório. E quem seria o tal John dos Passos? Por volta da altura em que vim para Lisboa estudar, em 2004, aquela casa transformou-se num centro cultural – Centro Cultural John dos Passos – marcando, para mim, acidentalmente ou não, o final de um tempo e de uma era. É mais difícil reparar nessas mudanças numa grande cidade. Na cidade (na metrópole?) a mudança nunca é um produto ou uma decisão, mas um processo, uma marcha, uma massa coligada de vontades anónimas, onde nada parece definitivo, e de onde presumivelmente resulta a melhoria da vida. Na cidade, tudo muda com uma energia predisposta e boa em si mesma. As coisas não morrem nem desaparecem. Como na lei natural, tudo se transforma. O antigo Estádio da Luz é o novo Estádio da Luz, os escritórios são clínica dentária, o descampado é bloco de apartamentos, o cabeleireiro é hamburgueria, o cinema é loja chinesa, a churrascaria é pastelaria. Pelo meio, há casulos de andaimes, contraplacado, “em breves” e marcas experimentais. Mas é raro haver nada, é raro o vazio, o vazio necessário para sentir o que se perdeu. Na ilha, o compasso é outro. As coisas desaparecem e aparecem com outro vagar. Aqui é claro, ou mais claro, que certas coisas morrem por si. Não é a loja chinesa que se impõe, não é a moda de comida rápida que prevalece, não é a pressão compradora que constrói. É a loja que deixa de vender, é o café que deixa de servir, é o estádio que deixa de ser utilizado, é a estrada que deixa de ser arranjada, é a casa que deixa de ser mantida. É o que existe que perece e se decompõe, por abnegação de quem está ou por ausência de quem estava. Sempre que regresso à Madeira, choco com este passado, cristalizado e idealizado, anterior a 2004. Com esta cultura de segunda metade do século XX, pós-guerra, pós-revolucionária e pós-colonial, de fé cega, onde o mero avanço do tempo leva com o carimbo do progresso. Onde a obra pública é o apanágio da justiça social – onde se constrói por construir, e quem vier depois paga contente e agradecido, porque vive mais aprovisionado e feliz, na presença da sabedoria e da grandeza. Penso em como esse mundo terminou, por mais que se lute por ele, por mais que ele tenha a sua inércia. Que o passado também cobra, também tem a sua gravidade e as suas dívidas, as suas garras de ferrugem. E penso no sentido que faz aquela placa e os seus “ascendentes”. São, de facto, figuras de Direito Sucessório. Não foi John dos Passos que herdou aquela casa, foi aquela casa que o herdou. Foi John dos Passos que voltou, para devolver à casa dos seus antepassados parte daquilo que os seus pais foram procurar à América. Foi um John mais novo que se inquietou, em Manhattan Transfer, com o fim de outra era: “O que há de terrível em Nova Iorque estagnar é que não há nenhum outro sítio para onde ir. É o topo do Mundo”. O que há de terrível no topo do Mundo estagnar é a sensação de que não há sítio para ir senão para trás, para o passado triste e trilhado. Quando não se está no topo do Mundo, resta-nos viajar no tempo viajando no espaço – resta-nos trocar as casas da nossa infância pelos Estados Unidos de cada um. Que quem parte não se esqueça, e saiba voltar, com a sua placa, à única casa que o pode herdar.
Pedro Fontes, Advogado