“Simplesmente genial” (“Shine”, em original) é um filme que, desde 1996, deixa, quase sem excepção, marcas indeléveis nos seus espectadores. Sem entrar nas questões de verosimilidade da história e dos factos da vida do personagem principal, um pianista mentalmente perturbado que encontra a saída da escuridão através do amor, é difícil ver este filme sem sentir, por simpatia, a exaltação, a depressão e as emoções intensas e impulsivas pelas quais passa este indivíduo tormentado.

De todas as músicas utilizadas neste filme, muitas gravadas por próprio David Helfgott, uma sobressaiu e tornou-se o símbolo musical do filme, talvez por retratar emoções de maneira mais intensa e diversa do que outras obras incluídas: o Concerto nº 3 para piano e orquestra de Rachmaninov. Dentro de pouco tempo, em vários países, os CDs de quase todos intérpretes desta obra esgotaram-se temporariamente, tal foi a necessidade de ouvir o “Rach três”, como a obra se tornou conhecida, e mergulhar outra vez nos sentimentos que evocavam os labirintos de uma vida singularmente desafiada.

Talvez não foi por acaso que, entre as peças de Beethoven, Schumann, Chopin, Liszt e outros grandes mestres, destacou-se, por afinidade emocional, a música de Rachmaninov. Mas não é só o caso do referido concerto, toda a sua música é extremamente eloquente, e isso numa arte que é considerada a mais abstracta de todas; é música que comunica, pega na alma e no coração do ouvinte e leva-o para os lados talvez nunca antes sentidos ou percorridos, é música que vive e que faz viver, é uma dádiva à humanidade do dom extraordinário deste grande romântico do século XX.

Dentro de poucos dias, haverá a oportunidade de presenciar este dom ao vivo, no ãmbito do Madeira Rachmaninov Festival, cujos quatro concertos trazem uma seleção ecléctica de obras para piano em variadíssimas combinações: a solo, a quatro mãos, a seis mãos, a dois pianos, com violoncelo e em trio com violino e violoncelo. Em três destes concertos o público terá o privilégio de ouvir interpretações de Artur Pizarro, um músico que dispensa de apresentação e que nesta altura não só que está a terminar a execução do ciclo integral das obras para piano do compositor russo na Inglaterra (em Londres e em Milton Keynes) e na Fundação Gulbenkian, mas também está a efectuar a gravação deste ciclo em CDs para a editora Odradek Records. E que interpretou esse mesmo 3º Concerto ainda em 1990, na fase final do importantíssimo Concurso Internacional em Leeds, que acabou por ganhar, por unanimidade.

Robert Andres