Independentemente de estarem por escrutinar as consequências sociais decorrentes da dependência dos smartphones e tablets, é absolutamente claro que nunca foi tão fácil disseminar informação e nunca emissores e receptores estiveram tecnicamente tão conectados.

Tenho defendido que a Babilónia informativa criada pela rede social requer um filtro de referência para sabermos em que verdade noticiosa confiar. Para esse efeito, nas palavras do fundador do El Mundo, “é preciso acordar o cão de guarda da democracia”. Para Pedro Ramirez, “o jornalismo atravessa a ‘tempestade perfeita’ mas, atesta, “os jornalistas jamais deixarão de existir”.

Concordando com o especialista espanhol, tenho para mim que os fazedores de jornalismo ainda procuram o papel a desempenhar no actual quadro social - muito por causa da incidência da crise no sector e de questões do foro profissional – e que, numa altura em que precisamos de um jornalismo maduro, não oferece estabilidade ao sector confundir a análise do tempo de vida dos media tradicionais com quem dá vida à informação, apontando para a sua extinção.

Para esta reflexão, consideremos alguns dados do quadro quantitativo que vai definindo o estado da comunicação social: o investimento publicitário tem vindo a subir na Internet (7%) e a descer no sector da imprensa; entre 2007 e 2014, a venda de jornais diários generalistas caiu 40%; nos EUA, a indústria de televisão sofreu a primeira queda nos valores de publicidade e, em 2013, nos jornais, a publicidade online só cresceu 1,5%; a GFK revelou que os portugueses estão a consumir cada vez mais informação televisiva; Em 2013, um em cada 10 internautas estava disposto a pagar por notícias online; os grupos de media que investiram no jornalismo online registaram um aumento recorde de subscritores em 2012; 59% dos utilizadores disponíveis a pagar por notícias online já detêm uma assinatura; na Madeira, o Diário continua a bater recordes de visitas online e já tem 200 mil seguidores no Facebook.

No tempo em que as notícias vão ter com as pessoas, de forma mais rápida e directa, há que reflectir seriamente sobre a deriva dos media para o espaço digital. Estranhamente, a comunicação social tarda em sair do estado de alma “híbrido” em que vive, como confirma a opinião de Pedro Ramirez quando aponta para as reticências à mudança por parte dos grupos de comunicação e dos seus aliados (políticos e financeiros).

Comungo da ideia de que serão os projectos online nativos a pressionar a mudança no sector, na essência, porque são pensados para responder ao desafio premente sobre a forma como a notícia deverá ser disponibilizada numa sociedade em perfeita dessincronização. O arrastamento dos dilemas num sector super pressionado pelas novas castas de cibernautas, nada interessadas em pagar por notícias, pela migração para o tecnológico, pelos sites agregadores, vorazes captadores de publicidade, são um contributo líquido para a queda de circulação, das audiências e das receitas.

Por isso, a nova palavra de ordem é criar valor. Em pleno quadro de crise, há dois exemplos nacionais a reter: a criação do jornal online O Observador e o lançamento do novo site do Diário Económico. O Observador quer explicar as notícias e resistir ao soundbyte, um conceito audacioso na NET. O Económico estreou o sistema de medição Guaranteed Time Slot, um sistema que permite medir o tempo de visionamento e a exposição ao utilizador. De facto, o tempo está a tornar-se na medida de “brand awareness”, alterando a forma de olhar para o valor das notícias.

Em suma, se os media podem agora monitorizar melhor o impacto de uma notícia, através do GTS, de links, comentários ou partilhas, formas de reacção que permitem definir o seu real valor, é também altura de pedir um jornalismo maior do que as circunstâncias.

Do Diário, sustentado nos seus musculados 138 anos de experiência, sei que teremos o empenho necessário para esta aventura.

Marco P. Freitas