Em tempos idos, na baixa Idade Média, numa aldeia remota que quase ninguém sabia que existia, um padre foi excomungado e condenado à foqueira por ter praticado uma horrenda heresia: nos haveres da paróquia foi encontrado um manuscrito que serviu de prova, sem margem para dúvida, de que o pároco, em vez de salvar almas, colaborava com o Diabo. Pacto com o Diabo No “diabólico documento” o padre descrevia o destino das esmolas da sua paróquia: 100 dinheiros para avivar as chamas do inferno; 300 dinheiros para colocar almas novas no inferno. Em rodapé, mais uma nota comprometedora: 200 dinheiros para impedir que os fiéis se aproximem do céu. E ainda: a igreja será fechada para que os paroquianos não incomodem as atividades do inferno. Sentença sumarissima O juiz da inquisição, depois de ouvir testemunhas que juraram por sua fé que documento era verdadeiro, deu logo ordem para prender o acusado. Por coincidência, o padre, nesse dia, não se encontrava na paróquia. Esta ausência foi mais uma prova do que o padre escrevera: iria fechar a igreja para não perturbar o inferno. Os advogados e conselheiros do tribunal concluiram: “o padre é até indigno de pisar o tribunal e de ser interrogado. Padre que venera o Diabo só pode ter um destino: fogueira de imediato e sem piedade!”
Esclarecimento Um mestre da cidade mais próxima, logo que soube da prisão do padre, correu para o bispo a esclarecer o “diabólico documento”: neste constavam, apenas, notas de um “orçamento” que o padre lhe pediu para reparar as pinturas da igreja: - na parede onde estava a pintura do inferno tinha ocorrido infiltração de chuva, por isso, havia necessidade de “reparar o inferno” com novas pinturas. Na pintura do céu, noutra parede lateral acessível ao público, foi colocada uma vedação para que os paroquianos não se encostassem à parede, para não estragarem a pintura. O templo era de espaço reduzido e iria tornar-se, por alguns dias, um “atelier de pintura”, motivo porque o mestre recomendou que “a igreja permanecesse fechada para não perturbar as pinturas no inferno”. Autorização do bispo Perante tal esclarecimento, o bispo mandou rápido recado ao juiz para que suspendesse a execução do padre. Não sabemos se este pedido chegou a tempo. Naqueles casos, “de comprovada prova diabólica”, a Inquisição era célere a cumprir a sentença. O que sabemos é que, posteriormente, o bispo “autorizou que colocassem novas almas no inferno! E permitiu a vedação para impedir o acesso ao céu”. No entanto, o bispo bem esclareceu que “estava a referir-se às pinturas na igreja”! – Não vá o Diabo tecê-las e a autorização cair em mãos erradas! Prova dos factos “Para ser bom juiz ouve o que cada um diz”, diz o ditado popular, com razão. Também, é costume dizer-se que a Justiça é cega e, por vezes, surda também. Foi o que aconteceu ao padre que quis restaurar o inferno! Também se diz que os juízes vão para o inferno às costas das testemunhas, empurrados (ou puxados, dizem alguns) pelos advogados, carregando às costas, quase sempre, muitos sacos com preconceitos sociais. *) Assessor do Ministério da Justiça em Timor-Leste
João Luís Gonçalves *