A nossa ilha é uma das mais belas que conheço, mas a beleza humana nem sempre acompanha a mãe Natureza. Os nossos antepassados muito se esforçaram para construir os nossos “poios”, os nossos caminhos e as levadas em sintonia com a natureza revelando a sua sabedoria popular.
Com o passar dos anos apareceram novos materiais e novas tecnologias como o betão e em nome do progresso e do desenvolvimento surgiram as novas construções que muitas delas em nada dignificam a Madeira.
Sem dúvida que foi muito importante a construção de novos acessos principalmente para as localidades mais distantes das centralidades, só que cometeram-se muitos excessos principalmente no que respeita à orla costeira e é necessário dizer - basta!
Houve uma utilização abusiva do dinheiro público e ninguém foi consultado em relação aos muitos projetos que acabaram por ser realizados e posteriormente abandonados. Simplesmente só se preocuparam em construir, desalmadamente, desperdiçando os nossos recursos naturais e financeiros.
A Assembleia da República aprovou a Lei de Meios para o financiamento das iniciativas de apoio e reconstrução na Região Autónoma da Madeira, na sequência da intempérie de fevereiro em 2010.
Inqualificável é terem sido gastos milhões de euros da Lei de Meios para a maníaca ideia da marina do Lugar de Baixo ou com outras obras de intervenção em zona litoral nomeadamente a da Avenida do Mar, quando existem tantas obras por recuperar por toda a ilha com mais prioridade e que foram esquecidas ou relegadas para segundo plano. Será que os meios justificam os fins?! Não, porque esses meios não foram utilizados para recuperar o que foi realmente destruído, mas sim para construir obras que cada vez mais descaraterizam a nossa região.
Com esse dinheiro seria mais justificável tê-lo canalizado para recuperar muitas das estradas que se encontram em péssimo estado de conservação por toda a ilha ou concluir as vias de acesso nomeadamente entre a Fajã da Ovelha e a Ponta Pargo, ou a construção de um novo itinerário de ligação entre o Jardim do Mar - Estreito da Calheta proporcionando mais segurança às populações ou investindo nas pessoas através de um maior investimento na educação e na cultura.
A escola é o espelho da nossa sociedade e são os próprios alunos que cada vez mais identificam as grandes contradições existentes entre aquilo que é transmitido no recinto escolar e a nossa realidade social.
Recentemente uma aluna questionava-me como era possível a estrada de acesso à sua casa estar cheia de buracos, quando as estradas em bom estado de conservação estavam constantemente a ser arranjadas com novos tapetes de alcatrão e como podia o governo afirmar dar tolerância zero à construção de casas na ribeira, quando permitiu a construção de um novo posto de gasolina na ribeira da vila da Calheta.
Em Portugal, ainda não faltam os lápis, os livros e muito menos os professores, ao contrário de outros países orientais, no entanto falta o principal: a dignificação da carreira docente.
Malala é uma estudante e ativista paquistanesa com dezassete anos que recentemente ganhou o prémio Nobel da Paz e numa das suas frases ela diz: “Eu sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele o oceano seria menor”
Em Portugal precisamos urgentemente de pessoas boas e com coragem como a Malala para denunciar junto das instâncias internacionais as aberrações do nosso sistema e de quem o governa. Se as pessoas desta terra pensassem assim, em muitas das eleições regionais o seu voto teria feito diferença para a necessária mudança na nossa região e no nosso país.
Patrícia Sumares