António Fournier À nossa frente, no enfiamento do corredor a céu aberto entre o hospital e o anexo, uma chama da floresta cintila na tarde. Aguardamos dentro do carro que o chamem para a sessão de quimioterapia. É o meu último dia de verão na Ilha. Conta-me que tem agora um galo que canta de madrugada e galinhas que esgravatam a terra.

Tem-nas escutado nestas noites em que a insónia morde impiedosamente. Dormiu duas horas nos últimos dias. Tem escrito muito, às vezes dois poemas por dia. E notou que, apesar de tudo, é uma poesia feliz, apaziguadora. Enquanto dá comida às galinhas, vem-lhe o primeiro verso. Escreve-o no quadro de ardósia que há anos está no alpendre. Então o poema jorra como uma torneira aberta. E ele limita-se a fixá-lo a giz no quadro preto. Como fazia a mãe a quem ele deixara uma dia uma folha de papel cartonado e giz de cor. A mãe a quem ele dedicou o seu melhor poema, num esforço titânico, do tamanho do seu coração, para fazer jus à sua obra.

Reuniu um conjunto ímpar de testemunhos inspirados nas suas pinturas. Apresentou o livro com entusiasmo e comoção em Santa Cruz, no Funchal, no Centro Cultural de Belém. Mas secretamente sabia: o esforço anímico que despendeu para resgatar a mãe do esquecimento, acabou por sorver-lhes todas as energias, esgotou-o. Pede-me para entregar um exemplar a alguém em Itália. Começa a autografá-lo, mas é o meu nome que sai. Quando se apercebe, pára um instante, depois retoma serenamente a escrita. Era destino, diz, que este livro fosse para ti. Tenho-o agora aqui à minha frente, olho para ele e penso em como terão sido os últimos instantes de uma consciência lúcida que todos os dias poetizava a sua luminosa existência. Cuida de ti, digo ao despedir-me. Marcamos encontro para o Natal, para a sopa de trigo e o pão caseiro que ele próprio fará quando for outra vez Janeiro na ilha. No último poema que me mandou despedia-se assim: como as árvores morrerei tudo é leve nos gestos dos mais próximos.