“O PSD, quer a nível regional, quer a nível nacional... foi objecto de uma ‘golpada’ de inscrições e quotas pagas por grupos económicos e outras entidades...”, escreveu 5.ª feira Alberto João Jardim.
Às vezes belisco-me para garantir estar acordado. Foi o caso.
Então não foi Jardim quem entregou a Jaime Ramos o controlo do PSD-M? Não é esta criatura que diz que o PSD tem dono e que é ele? Não é Jaime Ramos “o Padrinho” madeirense? Não foi ele que traiu Jardim e quase o fazia perder as últimas eleições internas? Não é por tudo isso que Jardim se mantém inseparável de Ramos? Medo do seu poder de traição? Medo da sua frieza na hora de abandonar? Quantos leais e dedicados militantes se afastaram, ou foram humilhantemente desprezados porque avisaram Jardim deste perigo?
Então Alberto João não sabe das inscrições no PSD-M aceites em 2013? Não sabe quantas foram? Não quis saber?
A verdade é que não as impediu porque à data o propósito era outro e servia perfeitamente. Só que tudo mudou. Os seus candidatos oficiais já não vão ganhar nada, porque nem o partido os quer. São fracos e o exemplo perfeito da ruína e incapacidade para governar bem. Mesmo que ganhem o PSD-M por ‘golpada’, logo depois perdem as eleições regionais.
Até Jardim sabe que precisam ser eliminados. A bem do PSD-M. A bem da Madeira.
Só que isso implica uma vantagem para o seu anterior concorrente. Que ele odeia. A quem já está colado Jaime Ramos. E onde já operam Jaime Filipe e seus fiéis. Desde as outras eleições internas. Não fosse o caso... que quase se confirmava.
E essa será a grande traição de Ramos a Jardim. A última. A decisiva. A que humilhará Jardim e o levará à mais profunda amargura. Mas deixará “o Padrinho” senhor dos seus poderes. Chefe dos seus peões.
É assim que Jardim deixa o PSD-M. E não devia ser. Aliás, já devia ter sido (ler saído). Saía em grande. Tinha entrado outro em excelente momento de supremacia do PSD. Mas Jaime Ramos não o deixou sair. Nem outro entrar.
Conhecedor da dependência de Jardim à sua pessoa. Não arriscando os seus privilégios perante o chefe, poder de influência e decisão, mando absoluto no partido, no parlamento e no governo. Rei das obras públicas, senhor dos alvarás, empresário em todos os grandes negócios e dono das agendas de todos os súbditos. Os seus interesses são superiores a tudo.
É a negação do discurso de Jardim que, quando fala, parece fazer de conta que Ramos nunca existiu ou existe. Porque a não ser assim o discurso teria de ser outro: de pedido de desculpas pelos abusos do seu braço direito.
Entretanto exclamam que não sabem do partido. Desconhecem o buraco financeiro. Escondem as despesas. Deixam os empreiteiros da construção civil pagar milhares de quotas. Obras que nunca acabarão. Outras que não servem para nada nem alguém as quer. Os abusos que são consentidos. Venha então a candidatura! A sexta!
Alguém tem dúvidas da sua opção, se Ramos tiver de escolher entre o interesse dos negócios e dos sócios e a lealdade ao seu fiel líder?
Imagino como serão as noites de Jaime Ramos a conjecturar estratégias para continuar a oferecer influência aos seus sócios empreiteiros. Isso ele garante se vencer o candidato que apoia. O mesmo de 2012? O que ele colocou na Câmara Municipal do Funchal em Dezembro de 1993, quando afastou a candidatura de Sérgio Marques, seu ex-sócio e, ao tempo, candidato preferido de Jardim?
Pensa ele, mas está enganado. Esperemos nós! De qualquer dos modos, e se tudo isto não for uma farsa, magoará Jardim de forma ignóbil. E nenhum social-democrata lhe perdoará.
A sua eventual candidatura é a demonstração que o seu candidato preferido já não é assim tão favorito. A tentativa desesperada de, sem candidato vencedor, manter o poder. Cenário apocalíptico só possível numa insanidade colectiva impensável. Resta-lhe o golpe do adiamento para que tudo continue na mesma. Nesse caso haverá revolta! QUO VADIS PSD?
PS: Nesta semana, Manuel António primeiro e Sérgio Marques depois, escreveram sobre o Centro Internacional de Negócios da Madeira. O primeiro repetiu os meus conceitos sobre o tema. Louvável! O segundo procurou, complexo habitual em si, apresentar uma diferença qualquer para retirar a ideia de cópia.
Não vale a pena inventar defeitos no que apenas nos devia unir e mobilizar como fonte de financiamento para um futuro de conforto e estabilidade financeira.
Deixemo-nos de detalhes ridículos e juntemos as nossas forças, também com a oposição, para levar por diante o único plano de receitas financeiras que nos tirará da crise.
Miguel de Sousa