Nem só os rios correm para o mar. Ao que parece, também as lagoas. Uma operação de manutenção de uma importante infraestrutura de gestão da água transforma-se num evento que fere a qualidade do ambiente em várias dimensões e localizações. O mar de Machico foi atingido, de surpresa e para surpresa de todos, por uma maré castanha. Poluição resultante do efeito directo e combinado de uma operação, que sendo necessária, tem que ser planeada em todos os seus detalhes. Algo falhou, resultando num evento de poluição costeira e marinha com impacto ambiental e também económico mas que, uma vez mais ninguém se incomodará a medir. Não se saberá, nem os responsáveis pelo evento mostram interesse nisso, qual o impacto sobre, por exemplo o habitat de elevado valor conservacionista e ecológico que existe na baía de Machico, uma pradaria de Cymodocea nodosa. Não se saberá, nem os responsáveis mostram tal interesse, em saber o impacto em termos de utilização do espaço para actividades subaquáticas. Não se saberá quanto custa uma situação destas em termos de imagem qualitativa do cenário paisagístico, o tão propalado nosso maior recurso turístico. Não se saberá, porque ninguém está interessado ou sequer preocupado com isso.

Há uma surdina ambiental que de momento parece achar tudo isto como se fosse uma situação de absoluta naturalidade. Mas não é. Com excepção para a poluição química, o evento, tal como surgiu aos olhos de quem o viu, é parecido a uma maré negra, só que castanha. E perante este facto, poluição, fortuita ou não, que acontece? Que responsabilidades, para além de se ficar a saber que não se previu o que acabou por acontecer? Que planos de contingência, preventivos e até de comunicação e informação ao público? Algo correu mal? Se foi tudo normal, vai ser sempre assim, no futuro?. A operação estava licenciada? Foi acompanhada pelas autoridades competentes?. Quem são as autoridades competentes?

Nos tempos de hoje, fica difícil entender como é que estas situações ocorrem. Mas ocorrem, por acidente, por azar, porque sim, porque tem que ser, sabe-se lá. O que não se entende é como fica todo o discurso de valorização do mar, da paisagem, do ambiente, da gestão dos recursos naturais, da prevenção da poluição, do principio do poluidor pagador e do exemplo que tem que vir da administração, dos licenciamentos necessários, dos acompanhamentos e fiscalizações, enfim, parece que deu uma branca (ou castanha) momentânea no ambiente.

Recuso-me a pensar que teremos que assistir a estas cenas de cada vez que se tiver que limpar uma lagoa. A limpeza de uma lagoa, como parte do processo de gestão da água não pode ser uma espécie de parente pobre de um sistema moderno, suportado por tecnologia, laboratórios, técnicos e conhecimento que efectivamente existe. Imagine-se, o que seria, para um mesmo cenário, se o responsável pela descarga de águas em meio receptor natural fosse uma entidade privada, uma indústria, por exemplo. A notícia seria a mesma, na sua origem mas, muto certamente e justamente complementada com informação sobre os procedimentos em falta e a indicação do espectro da respectiva moldura sancionatória, que, neste caso, deve ter ido bater ao mar...

António Domingos Abreu