Acompanhei os dois principais momentos da campanha dos candidatos à liderança do PSD-M, através da RTP-M. Primeiro, o conjunto de pequenas entrevistas individuais a todos os candidatos, editadas num mesmo programa, e o segundo momento um debate com todos os candidatos. Sem entrar, por agora, na avaliação dos candidatos quero fazer os seguintes comentários: o modelo encontrado pela RTP-M foi muito bom. Nunca, em Portugal, se tinha assistido a um modelo semelhante onde a preocupação jornalística tenha sido a do esclarecimento e não a do puro show mediático. Também o segundo momento - que foi o debate a 5 - foi, igualmente, excecional. O sucesso deve-se, naturalmente, às posturas adotadas pelos candidatos mas principalmente ao modelo escolhido pela RTP-M e ao enorme profissionalismo do entrevistador. A Madeira acabou por dar uma lição de democracia mediática. A registar. ANTÓNIO COSTA António Costa ganhou sem surpresa as diretas no PS. A partir do momento em que as eleições foram abertas não só aos militantes mas também aos simpatizantes António Costa partiu logo em vantagem. Agora Costa vai ter de demonstrar se de facto é o “salvador” ou um “bluf”. Até agora Costa teve a vida facilitada. Tinha no Largo do Rato um líder fraco. Tinha na Câmara de Lisboa (e ainda tem) uma máquina de propaganda. Teve um governo central amigo que lhe pagou as dívidas acumuladas de muitas dezenas de milhões de euros (através do pagamento dos terrenos do aeroporto). Agora está a chegar a hora da verdade. António Costa tem de ser coerente com as críticas que tem feito ao governo e apresentar (finalmente) as suas receitas para baixar impostos, repor os cortes, colocar a economia a crescer e fazer alianças com os partidos à sua esquerda (comunistas e bloquistas). A campanha interna do PS serviu para se perceber que António Costa afinal não é assim tão invencível. E não é. Basta ver a gestão da Câmara de Lisboa e muitas das instituições que dependem da Câmara. O despesismo e a má gestão são evidentes. A coligação PSD/PP pode ganhar a António Costa e ao PS. No entanto para isso tem que ter uma comunicação eficaz (não é propaganda) e tem de adotar um combate político esclarecedor. Duas coisas que nem o governo nem o PSD têm sabido fazer. Essas duas falhas são os melhores aliados de António Costa. AS DESCULPAS DOS MINISTROS A ministra da Justiça e o ministro da Educação apresentaram desculpas pelas suas incompetências. A primeira devido ao colapso do sistema informático do Ministério e o segundo devido à falhas processuais na colocação de professores. Foram de facto falhas graves e dificilmente aceitáveis. Os ministros assumiram publicamente os seus erros. Uma atitude que só lhes fica bem mas que não lhes compensa as falhas cometidas. No entanto a oposição, e alguma opinião publicada, logo ridicularizou a atitude dos ministros em se desculparem. Este comportamento da oposição só merece um breve comentário: se os políticos não pedem desculpa são “arrogantes”; se pedem, são ridicularizados. Em que ficamos? ELEIÇÕES NO BRASIL O Brasil vai a votos dentro de poucos dias. Mais uma vez este imenso país de língua portuguesa torna-se um exemplo mundial. Uma democracia onde tudo pode acontecer. E acontece com toda a naturalidade. Lula da Silva um pobre sindicalista, com pouca instrução, cuja primeira mulher morreu por falta de assistência médica à porta de um Centro de Saúde algures numa perdida cidade no Nordeste brasileiro acabou em Presidente da República. E foi um muito bom Presidente. Recentemente, a convite do meu amigo Mário Vilalva (Embaixador do Brasil em Portugal) tive o gosto de me encontrar com Lula da Silva em Lisboa. Impressionou-me a sua postura consensual e bem com a vida. É fácil gostar de Lula. Lula foi sucedido na residência da República por uma mulher, o que por si só já é histórico. Uma mulher filha de búlgaros. Agora existe outra hipótese: do próximo Presidente não só continuar a ser uma mulher, e esta ser Marina Silva. Esta ecologista tem uma história de vida impressionante: passou fome em pequena, trabalhou quase como escrava e só aprendeu a ler e a escrever aos 16 anos. Apesar disso tem a oportunidade de ser Presidente da República do Brasil. Este é um grande exemplo de Democracia: oportunidade igual para todos! O ESTADO ISLAMICO Na verdade não se trata nem de um Estado nem de Islâmicos. São puros terroristas. Do pior. Estão com uma estratégia bem definida e com verbas suficientes para a levar a cabo. Nada foi deixado ao acaso. Tudo foi planeado ao ínfimo pormenor. São, de facto, profissionais. Devemos no entanto fazer uma pergunta e exigir uma esclarecida resposta: como foi possível um grupo de terroristas armar um projeto destes com esta dinâmica e dimensão sem ser detetado e impedido pelos Serviços Secretos de tantos países? Que serviços de inteligência são estes? Outro dado que deve merecer reflexão é o facto do Iraque, da Líbia, do Afeganistão e da Síria estarem muito piores e mais inseguros – e mesmo mais ameaçadores para o Ocidente – que antes da queda dos respetivos líderes e governos. Derrubes apoiados pelos países ocidentais. Então depois de tanta guerra, tanta despesas militar e tantas vítimas a ameaça, neste momento, é superior? Que estratégias são estas? Existem lições que já se deveriam ter tirado: não vale a pena derrubar ditadores quando a alternativa é o caos. Outra conclusão: que se derrubem ditadores até está certo mas que nunca se desfaça os Estados senão o resultado é o que se vive nestes país: um caos generalizado onde existem países mas não existem Estados. A ironia do destino é verificar que nesta guerra contra o Estado Islâmico os países ocidentais aliaram-se (discretamente) às forças de Bashar Al Assad na Siria e que os turcos aliaram-se aos curdos. Até o Irão está do lado dos Estados Unidos nesta guerra. Tudo com discrição. É, mais uma, ironia da História.

Paulo Neves