Miguel Gomes Tenho visto por cá e não só, uns pensantes que por imperativo de sobrevivência do próprio ego moribundo, comentam, opinam e dão palpites sobre temas que vão desde o estado da Nação, à simples descrição meteorológica. Em suma, tudo e mais alguma coisa. Li algures, que dizer o que se pensa não tem nada de admirável. É fácil, revela sobranceria (que têm as minhas opiniões de tão especial para que eu me sinta no dever de as comunicar aos outros?), e é muitas vezes desagradável. Aliás, crê-se que a vida em sociedade se baseia precisamente na maravilhosa capacidade de não revelar o que pensamos. No terreno, sempre a assobiar para o lado, mas a escrever é que são uns valentes. Dito isto, a cereja no topo do bolo está na forma como terminam esta variante de monólogos da treta: “….blá blá blá blá blá.....!!! Enfim, desculpem qualquer coisinha.” Este final fantástico (há variantes) é uma espécie de cartão “Você está livre da prisão”, em que no fundo, após presentear o privilegiado leitor, que teve a sorte de ler tão ilustre texto, termina numa forma que tenta enobrecer o autor e desculpá-lo de qualquer disparate que possa manchar o seu brilhantismo. Sem saber se estamos perante simples vaidade ou complexa obsessão, a verdade é que este comportamento típico de narcisistas, que caracteriza o prepotente dos tempos modernos, acaba por ser apenas arrogância disfarçada, escarrapachada nuns textos que tentam mostrar superioridade intelectual e cultural mas que no fundo ambicionam simplesmente a admiração das outras pessoas. Mas há que reconhecer: têm uma lata...