Catapultado para a ribalta da discussão pública por força da intervenção da troika em alguns países europeus, o confronto entre a tecnocracia e a política tem sido apresentado como o embate entre técnicos responsáveis e políticos despesistas, ou entre a ditadura financeira e a democracia humanista. Como em tantas outras questões, o interesse individual de cada cidadão define, em cada ponto no tempo, o seu lado da barricada. Podemos, então, suscitar várias questões pertinentes: Serão a tecnocracia e a política duas forças opostas e contraditórias? Estará a tecnocracia ao serviço da política, ou estará a política reduzida à gestão científica e objectiva da res publica? A resposta reside na relação entre a política, o saber e a ciência (Habermas), materializada em três modelos possíveis: o decisionista, o tecnocrático e o pragmático. Do ponto de vista decisionista, os agentes políticos reduzem as decisões políticas a actos individuais de vontade, rentabilizando o conhecimento técnico como mero instrumento de legitimação das suas escolhas, e dominando-o logo a partir do processo de recrutamento para a Administração Pública. No modelo tecnocrático, o processo de decisão é formulado como próprio de um saber altamente especializado, logo restringindo o número de interlocutores habilitados e eliminando o espaço para o debate político, reduzindo os agentes políticos a veículos de publicidade das conclusões insondáveis dos tecnocratas. Porventura com mais em comum do que o que os separa - e tema para outra reflexão - , os modelos decisionista e tecnocrata redundam na desmobilização dos cidadãos da discussão do seu futuro, ou seja, concluindo que a política é um espaço vazio de conteúdo ou interesse. A terceira via, dita pragmática, propõe um diálogo recíproco entre técnicos e políticos, os primeiros informando e os segundos aplicando e adaptando essa informação à realidade prática, transformando a diversidade de opiniões opostas em soluções inteligentes para os problemas comuns. Na verdade, é este o desafio aos nossos futuros líderes políticos, a urgência em devolver aos cidadãos a confiança na sua capacidade de influenciar o destino do seu país ou região.

João Paulo Marques Advogado