O tempo por cá está chuvoso. Lisboa parece cinzenta, encolhida debaixo dos umbrais, resguardando-se à espera do regresso de um Verão que não chegou a ser, em fuga de um Outono que pensa ser Inverno. Ao que me dizem, na Madeira anda igual.

O tempo por cá está como o país. De vez em quando, o sol parece querer impor-se, numa espécie de retoma que os mais optimistas acreditam inevitável. (- Não é o sol que nasce todos os dias? Porque não nascerá a retoma um dia destes?)

Ao que me dizem, na Madeira anda igual.

Não está propriamente frio. De vez em quando, anunciam-se tempestades que acabam por não acontecer. São como as vagas de protesto que não passaram de pequenas rajadas de vento. E o frio não se coaduna com a nossa eterna meia-estação.

Nos últimos tempos andei a ler “O Rio Triste”, do Fernando Namora. O Rodrigo dos Santos Abrantes, que vivia ali perto dos Anjos, desapareceu num dia como aquele em que escrevo. Chuvoso.

(Não exatamente na mesma data. Eu escrevo a 17 de Outubro e ele sumiu-se a 14 de Novembro).

Não estava propriamente frio, não era propriamente Inverno. Não se sabe para onde foi. Na paragem do autocarro, despediu-se da Teresa, que estava à varanda, e nunca mais foi visto.

É como Portugal. Apetece perguntar por onde anda, que já ninguém o vê...

É como a Madeira, que se calhar tem menos chuva mas afinal tem tanta chuva e são tantos os rodrigos na paragem do autocarro. Provavelmente, esperarão um comboio que não virá.

Sei lá onde anda Portugal...

Também ninguém sabe da Madeira. Muito menos do Rodrigo (desaparecido desde 1965, imagine-se!).

Sei apenas que todos esperamos por dias de sol.

O tempo por cá está chuvoso. Ao que me dizem, na Madeira anda igual. Por cá prevêm-se mudanças. Uma espécie de sol de Inverno que como dizia a minha tia Vanda, sabedora das coisas do mundo, é bom prás doenças.

Na Madeira já nada se consegue prever. Estou certo de que nem a minha avó Vera, que antecipava todas as manhas, conseguiria antever o que aí vem.

“Não, Cecília, não. Nada disto pode ser verdade”, escreveu o Namora. Estava errado.

Gonçalo Santos